Capa de Consumo de Combustíveis no Brasil (1990–2026): Diesel, Gasolina, GLP e QAV — Análise Completa

Consumo de Combustíveis no Brasil (1990–2026): Diesel, Gasolina, GLP e QAV — Análise Completa

Publicado: 2025-12-17 01:08 Atualizado: 2026-03-16 01:53 Por: Komesu, D.K.

Em 2024, o consumo total de derivados de petróleo no Brasil atingiu 134,3 milhões de m³, com o óleo diesel representando mais de 50% do mercado.110 Entre 1990 e 2026, as séries históricas de consumo de combustíveis no Brasil revelam transformações profundas na economia: a consolidação do agronegócio como motor do diesel, a substituição crescente da gasolina pelo etanol e os efeitos da Lei do Combustível do Futuro (Lei 14.993/2024).3 Este artigo analisa a evolução do consumo de derivados de petróleo no Brasil com base em dados da ANP e projeções da EPE.

O mercado de combustíveis no Brasil transcende a condição de setor econômico: ele dita o ritmo da atividade produtiva, calibra as expectativas de inflação e condiciona a mobilidade social. Analisar as séries temporais de consumo mensal de derivados de petróleo — Gasolina, GLP, Óleo Combustível, Óleo Diesel e Demais Derivados — oferece ao economista e ao investidor uma radiografia precisa da macroeconomia brasileira.

Este relatório utiliza as séries da plataforma Hedgehog para interpretar a evolução do consumo de combustíveis e derivados no Brasil. O período de análise abrange desde a estabilização econômica dos anos 1990 até as projeções para 2026, com ênfase nas transformações ocorridas entre 2024 e o início de 2026. O mercado atravessa uma transição estrutural pressionada por três vetores simultâneos: a recuperação da renda disponível das famílias, a nova arquitetura regulatória estabelecida pela Lei do Combustível do Futuro (Lei 14.993/2024)3 e a dinâmica de preços relativos entre combustíveis fósseis e biocombustíveis.

No cenário vigente, com dados consolidados até fevereiro de 2026, os indicadores apontam que o Brasil superou definitivamente as sequelas da pandemia de COVID-19 no setor energético. O consumo total de derivados, acompanhado na série agregada de consumo total, rompeu barreiras históricas, impulsionado pela resiliência do agronegócio (Diesel) e pela retomada da mobilidade urbana (Ciclo Otto). A composição desse consumo, contudo, mudou de forma estrutural. A elasticidade-preço cruzada entre gasolina e etanol nunca havia sido tão intensamente testada, enquanto a dependência de importações de diesel — mesmo com o crescimento da produção doméstica — expõe gargalos logísticos críticos no Arco Norte.

A seguir, a análise por derivado, fundamentada em teoria econômica, dados da ANP e projeções da EPE.

Participação dos combustíveis no consumo total do Brasil (2024)

Derivado Participação aproximada
Óleo Diesel ~50%
Gasolina C ~33%
GLP ~10%
QAV ~5%
Outros ~2%

Fonte: ANP, Anuário Estatístico 2025.110

Consumo de derivados de petróleo

Consumo de derivados de petróleo (Gasolina, GLP, Óleo Combustível, Óleo Diesel, Demais Derivados, To...

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Consumo Total de Combustíveis no Brasil: Tendências Históricas (1990–2026)

Qual é a relação entre PIB e consumo de combustíveis no Brasil?

Consumo de derivados de petróleo - Total

Série 1398 • Barris/dia (mil) • Mensal

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A curva de consumo total de derivados de petróleo no Brasil, visível na série de consumo total, exibe uma inclinação positiva secular, interrompida apenas por choques exógenos de magnitude relevante: a crise financeira global de 2008, a recessão brasileira de 2014–2016 e a pandemia de 2020.

Historicamente, a elasticidade-renda da demanda por energia no Brasil situou-se acima da unidade — ou seja, para cada 1% de crescimento do PIB, o consumo de derivados tendia a crescer mais de 1%, refletindo a motorização tardia da classe média e a expansão contínua da fronteira agrícola. Os dados de 2024 e 2025, contudo, sugerem um desacoplamento marginal em curso. Enquanto o PIB avança impulsionado por serviços e pelo agronegócio, a intensidade energética de derivados fósseis começa a encontrar competição na eletrificação incipiente e, sobretudo, na penetração cada vez mais profunda dos biocombustíveis — Etanol e Biodiesel.

Em 2024, as vendas totais de derivados de petróleo no Brasil pelas distribuidoras somaram 134,3 milhões de m³, registrando alta de 0,6% sobre 2023.110 Esse crescimento aparentemente modesto encobre uma divergência setorial relevante: o Diesel e o QAV puxam a curva para cima, enquanto a Gasolina C e o Óleo Combustível atuam como âncoras, em função da substituição por biocombustíveis e da hidrologia favorável, respectivamente.1

Como evoluiu o consumo de combustíveis no Brasil desde 1990?

A série total exibe sazonalidade pronunciada, visível nos picos e vales do painel de consumo de derivados e da série de consumo total.

Os picos ocorrem tipicamente no segundo semestre (Q3 e Q4), coincidindo com o escoamento da safra agrícola e a intensificação do comércio e do transporte nas festas de fim de ano. Os vales concentram-se no primeiro trimestre (Q1), historicamente mais fraco em atividade industrial e logística.

Uma linha do tempo ajuda a compreender os principais marcos:

Período Evento Impacto no consumo
1990–1994 Estabilização econômica (Plano Real) Início da curva ascendente de consumo
2008 Crise financeira global Queda pontual seguida de recuperação rápida
2014–2016 Recessão brasileira Retração prolongada do consumo
2020 Pandemia de COVID-19 Maior queda da história do setor
2021–2023 Recuperação pós-pandêmica Retomada em "V" no diesel e em "U" na gasolina
2024–2026 Nova fase de crescimento e transição energética Recorde de consumo total + substituição por biocombustíveis

O episódio mais marcante — o "Dente" de 2020 — representou o maior teste de estresse da história do setor. A recuperação em "V" observada no Diesel e a recuperação em "U" na Gasolina ilustram com precisão a diferença de essencialidade entre o transporte de carga (inelástico) e o de passageiros (elástico).


Por que o Diesel domina o consumo de combustíveis no Brasil?

Consumo de derivados de petróleo - Óleo diesel

Série 1396 • Barris/dia (mil) • Mensal

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O Óleo Diesel não é apenas um combustível: é um insumo de produção. Representando pouco mais de 50% do volume total de derivados comercializados em 2024,1 sua curva de consumo na série de óleo diesel constitui a proxy mais fiel da atividade econômica real do Brasil.

Consumo de Diesel no Brasil: Série Histórica e Recordes (2024–2026)

A série de óleo diesel revela uma tendência de crescimento robusto e quase linear desde 1990, com aceleração notável nos últimos cinco anos. Em 2024, o volume de vendas atingiu o recorde de aproximadamente 67,4 milhões de m³, crescendo 2,9% em relação ao ano anterior.110 As projeções da EPE indicam que o consumo de diesel no Brasil caminha para novo recorde em 2025, com estimativa de 70,5 bilhões de litros, puxados pela alta de 6,5% no diesel S-10 de baixo teor de enxofre.715

Três fatores econômicos explicam essa trajetória:

1. O Superciclo do Agronegócio. O Brasil consolidou-se como principal fornecedor global de grãos e proteínas. A expansão da fronteira agrícola para o Matopiba e o Centro-Oeste exige consumo intensivo de diesel, tanto no maquinário de plantio e colheita quanto no escoamento rodoviário. A correlação entre o volume da safra de grãos e o consumo de diesel no Q3 é elevada e estrutural — em dezembro de 2025, o consumo de Diesel B subiu 7,3% em termos interanuais, antecipando uma safra recorde para 2026.2

2. Diesel B e o Mandato de Biodiesel. A série histórica reflete o consumo de "Diesel B" (mistura de diesel fóssil e biodiesel). A Lei do Combustível do Futuro (Lei 14.993/2024)34 elevou progressivamente o teor obrigatório de biodiesel, com o mandato caminhando para B14/B15. Esse arranjo produz um efeito duplo: sustenta a demanda volumétrica total do setor, ao mesmo tempo que reduz a participação do Diesel A (fóssil puro). O aumento do mandato cria demanda rígida para o complexo soja, blindando parcialmente o setor agrícola de oscilações de preços internacionais — ainda que eleve o custo logístico final ao consumidor.

3. Obras de Infraestrutura (Novo PAC). A retomada de grandes obras civis ao longo de 2024 e 2025 operou como vetor adicional de demanda, especialmente para o diesel empregado em maquinário pesado fora de estrada.

Tabela: Evolução do Mercado de Diesel no Brasil (2023–2026)

Indicador 2023 2024 2025 (Proj. EPE) 2026 (Proj.)
Vendas Totais (Mil m³) 65.522 67.422 ~70.500 ~72.000
Variação Anual +2,9% ~+4,6% ~+2,1%
Dependência Externa ~23% ~25% ~24% ~22%
Principal Driver Recuperação Safra Recorde Safra + PAC Safra + Exportação

Fonte: Dados históricos ANP, Anuário Estatístico 2025.1 Projeções EPE, edição dezembro de 2025.478

Desafios Logísticos e Dependência de Importação de Diesel

Apesar do crescimento da produção doméstica nas refinarias (RPBC, REPLAN, RLAST), o Brasil permanece estruturalmente deficitário em diesel. Da ordem de um quarto da demanda interna é atendida via importação — valor que compila dados da ANP e estimativas setoriais.1210 A geopolítica do diesel se transformou profundamente entre 2023 e 2025, com a Rússia tornando-se o principal fornecedor de baixo custo. Essa dependência de um fornecedor sujeito a sanções cria um risco de cauda para a segurança energética nacional, caso as restrições do bloco ocidental se aprofundem ou a logística no Mar Báltico seja interrompida.


Consumo de Gasolina e Etanol no Brasil: Substituição no Ciclo Otto

Consumo de derivados de petróleo - Gasolina

Série 1393 • Barris/dia (mil) • Mensal

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A série de consumo de gasolina revela um comportamento muito mais volátil e sensível a preços do que o diesel, exibindo um "platô" de consumo nos últimos anos que contrasta com a trajetória ascendente do óleo diesel.

Por que o consumo de gasolina caiu nos últimos anos?

Em 2024, o consumo de Gasolina C no Brasil recuou 3,53%, totalizando aproximadamente 44,4 milhões de m³, enquanto o consumo total do Ciclo Otto (Gasolina + Etanol) continuou a crescer.1 Esse movimento não reflete uma contração da mobilidade, mas uma substituição econômica racional: a frota brasileira de veículos leves é majoritariamente flex-fuel, e o consumidor arbitra cotidianamente entre os dois combustíveis na bomba, guiado por preços relativos.

A Economia da Paridade (70%). Durante grande parte de 2024 e 2025, o preço do etanol hidratado situou-se abaixo da paridade técnica de 70% em relação à gasolina nos principais mercados consumidores (São Paulo, Minas Gerais, Goiás). Dois fatores sustentaram essa competitividade:

  1. Oferta de Etanol de Milho. A entrada expressiva do etanol de milho no mercado reduziu a entressafra tradicional da cana-de-açúcar, mantendo os preços do biocombustível em patamares competitivos ao longo de todo o ano. A consolidação do etanol de milho posiciona o Brasil como referência global em biocombustíveis pós-COP30.16
  2. Política de Preços da Petrobras. A nova estratégia comercial da estatal, que abandonou o Preço de Paridade Internacional (PPI) estrito, evitou o repasse automático da volatilidade cambial para a gasolina, mas preservou o patamar do fóssil em nível suficiente para assegurar a competitividade do renovável.6 Em meados de 2025, a gasolina avançou temporariamente sobre o etanol em alguns mercados, acompanhando reduções de preço nas refinarias.15

A Curva "Dente de Serra" da Gasolina

Observando a série de consumo de gasolina, identificam-se picos históricos em 2014 — durante o congelamento administrativo de preços — e em 2017/2018. O recuo recente de 2024/2025 é, paradoxalmente, um sinal de saúde do mercado de biocombustíveis.

No plano regulatório, a Lei do Combustível do Futuro (Lei 14.993/2024) elevou a faixa permitida de mistura de etanol anidro na gasolina C para até 35%, abrindo espaço regulatório para o E30, cuja viabilidade técnica já foi demonstrada pelo Instituto Mauá.345 A adoção efetiva de uma mistura mais alta depende de decisão do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). À medida que essas decisões forem implementadas, o volume de gasolina A tenderá a cair mecanicamente, achatando a curva da série de Gasolina C.45

Projeções e Elasticidades para o Consumo de Gasolina no Brasil

Estudos da literatura econômica sobre os mercados de gasolina e etanol no Brasil89 demonstram que a elasticidade-preço cruzada da gasolina em relação ao etanol é assimétrica e elevada no longo prazo. Para 2026, projeta-se que o consumo de Gasolina C se estabilize ou recue levemente: embora o aumento da renda média normalmente favoreça a gasolina — pela conveniência da maior autonomia —, esse efeito é contrabalançado por incentivos fiscais estruturais ao etanol e pela penetração lenta, mas constante, de veículos elétricos e híbridos nos grandes centros urbanos.


Consumo de GLP no Brasil: O Termômetro da Desigualdade Social

Consumo de derivados de petróleo - GLP

Série 1394 • Barris/dia (mil) • Mensal

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A série de consumo de GLP apresenta uma característica singular: baixa volatilidade sazonal combinada com alta sensibilidade à renda das famílias de menor poder aquisitivo. O GLP é um bem essencial — o gás de cozinha —, com demanda relativamente inelástica até um limiar de renda a partir do qual ocorre substituição por lenha ou carvão, configurando pobreza energética.

Recuperação da Renda e Políticas Públicas (2024–2026)

Após um período de estagnação e retrocesso no consumo per capita entre 2021 e 2022 — decorrente da inflação de alimentos e combustíveis —, a série de GLP voltou a crescer em 2024 (+2,18%) e manteve trajetória positiva em 2025.1

Três fatores impulsionaram essa retomada:

  1. Subsídio ao botijão (Auxílio Gás dos Brasileiros). A reformulação recente do programa federal reforçou o vínculo entre o benefício e a compra efetiva do GLP, sustentando o consumo na base da pirâmide de renda.14
  2. Aumento da Massa Salarial Real. Com o desemprego nas mínimas históricas e o ganho real do salário-mínimo, famílias retornaram ao uso exclusivo do GLP para cocção, abandonando combustíveis alternativos de menor custo imediato. A EPE projeta perspectivas favoráveis para o segmento em 2026.4
  3. Capilaridade Regional. O crescimento foi disseminado pelo território. O Sudeste ainda concentra 42,8% do consumo, mas o Nordeste (24,1%) apresentou taxas de crescimento robustas, correlacionadas com a expansão dos programas de transferência de renda.110

Estrutura de Mercado do GLP no Brasil

O mercado de GLP é um oligopólio natural na etapa de distribuição, com quatro empresas (Copagaz, Ultragaz, Nacional Gás e Supergasbras) detendo quase 90% da participação de mercado.10 A regulação da ANP concentra-se em garantir a livre concorrência e prevenir a formação de cartéis na revenda — desafio recorrente, especialmente em municípios do interior.


Óleo Combustível e Demais Derivados: A Indústria e a Energia Térmica

As séries de óleo combustível e demais derivados narram a trajetória da infraestrutura e da matriz elétrica brasileira ao longo de três décadas.

Óleo Combustível: A Variável de Ajuste Hidrológico

Consumo de derivados de petróleo - Óleo combustível

Série 1395 • Barris/dia (mil) • Mensal

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A série de óleo combustível exibe uma tendência secular de declínio, pontuada por picos abruptos que correspondem, quase perfeitamente, às crises hídricas brasileiras (2001, 2014 e 2021). Em 2024, o consumo recuou 7,84%.1 A explicação é direta: a hidrologia favorável permitiu ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) desligar as termoelétricas a óleo combustível — as mais caras e poluentes na ordem de mérito do despacho. O colapso do consumo na Região Norte (-39,2%) reflete ainda a interligação progressiva de sistemas isolados ao Sistema Interligado Nacional (SIN) e a substituição de térmicas a óleo por gás natural na Amazônia.

Segundo o Balanço Energético Nacional (BEN) 2025, a matriz elétrica do Brasil alcançou 88,2% de fontes renováveis, reforçando a tendência estrutural de queda no uso de óleo combustível para geração de eletricidade.17 Um contraponto analítico importante é o fenômeno emergente de curtailment (corte programado) na geração renovável, provocado por gargalos na infraestrutura de transmissão — o que poderá exigir ajustes regulatórios em 2026 para evitar desperdício de energia limpa.18

Demais Derivados: O Pulso da Construção Civil

Consumo de derivados de petróleo - Demais derivados

Série 1397 • Barris/dia (mil) • Mensal

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A categoria Demais Derivados é composta majoritariamente por asfalto, coque de petróleo, nafta e solventes. A curva ascendente recente reflete dois vetores principais:

  1. Asfalto e o Ciclo Político. O consumo de cimentos asfálticos de petróleo (CAP) acelera em anos eleitorais e em períodos de grandes investimentos públicos, como o Novo PAC.
  2. Nafta e a Indústria Petroquímica. A demanda por nafta deriva da produção de plásticos e resinas, competindo diretamente com o etano importado. A estabilidade econômica de 2025 favoreceu a demanda por embalagens e bens duráveis, sustentando o consumo nesse segmento.

Querosene de Aviação (QAV): A Retomada do Turismo e dos Negócios

A série de QAV foi a mais impactada pela pandemia, com queda vertical em 2020. Os dados de 2024 e 2025 confirmam uma recuperação vigorosa e consistente.

Consumo de QAV no Brasil: Rumo ao Recorde Histórico

Com crescimento de 6,8% em 2024, alcançando cerca de 7 milhões de m³,1 o mercado de aviação aproximou-se rapidamente dos níveis pré-crise econômica de 2014. A EPE projeta que 2026 deverá estabelecer um novo recorde histórico de consumo de QAV, com volume superior ao pico anterior, em um cenário de expansão contínua do transporte aéreo.4 O destaque regional é o Norte do Brasil, onde o consumo de QAV registrou aumento muito superior à média nacional, refletindo uma nova dinâmica de turismo ecológico e de negócios na região, além de melhoras significativas na conectividade aérea intrarregional.110


O Novo Arcabouço Regulatório e Político (2024–2026)

A leitura das séries de consumo seria incompleta sem a compreensão das regras que alteram a inclinação das curvas. Dois marcos regulatórios merecem atenção especial.

Reforma Tributária e o Mercado de Combustíveis no Brasil

A regulamentação complementar aprovada em 2025 consolidou a cobrança monofásica e ad rem (valor fixo por quantidade, não por preço) para o IBS e CBS sobre combustíveis — conforme o marco da reforma tributária em andamento.1112

Do ponto de vista econômico, a unificação das alíquotas em todo o território nacional elimina a arbitragem tributária e os "passeios" de notas fiscais entre estados. A tendência é de formalização do mercado, com redução da sonegação que historicamente distorcia os dados de consumo de etanol e gasolina. No curto prazo (2025–2026), a alíquota uniforme poderá encarecer o combustível em estados com ICMS historicamente baixo (como São Paulo) e barateá-lo em estados com ICMS alto (como Rio de Janeiro), promovendo um leve realinhamento geográfico do consumo.

Lei do Combustível do Futuro (Lei 14.993/2024)

Esta é a legislação mais transformadora para a próxima década no setor energético brasileiro.31314 Ela estabelece mandatos progressivos de descarbonização em múltiplos segmentos:

  • Etanol: teto de mistura na gasolina elevado para até 35%, com espaço regulatório para adoção de E30 mediante decisão do CNPE.35
  • Biodiesel: mandato com trajetória de crescimento chegando a 20% (B20) até 2030. A promessa do mandato B16 já aquece o mercado e amplia investimentos no complexo soja e em oleaginosas.16
  • Diesel Verde (HVO) e SAF: criação de programas mandatórios de mistura para aviação e transporte pesado.

Estimativas do mercado financeiro indicam que a Lei do Combustível do Futuro poderá atrair mais de R\$ 106 bilhões em investimentos até 2035, abrangendo etanol, biodiesel, SAF e captura de carbono.19

O impacto nas séries é estrutural: espera-se que a série de gasolina C continue cedendo participação relativa ao etanol, enquanto a série de diesel sustentará seu volume, mas com composição química progressivamente mais renovável — menos petróleo, mais óleos vegetais.413

Política de Preços da Petrobras

O abandono do PPI estrito e a adoção de uma estratégia que internaliza as vantagens competitivas do refino nacional reduziram a volatilidade dos preços na bomba.6 Em 2025, a gasolina ficou mais de 300 dias sem reajuste.7 Para o analista econômico, esse resultado significa que o preço do combustível deixou de funcionar como um choque de oferta aleatório para se tornar uma variável mais previsível, ancorando expectativas inflacionárias e facilitando o planejamento logístico das empresas.


Conclusão e Perspectivas para o Mercado de Combustíveis no Brasil (2026–2030)

A análise das séries de consumo mensal de derivados de petróleo no Brasil aponta para uma economia que ainda cresce sustentada por energia densa. Quatro tendências estruturais definem o horizonte 2026–2030:

  1. Hegemonia do Diesel. O Brasil continuará sendo uma economia movida a diesel. A expansão do agronegócio assegura que a curva da série de óleo diesel mantenha sua inclinação positiva. O desafio central será logístico — tancagem, portos, infraestrutura no Arco Norte — e não de demanda.
  2. Transição no Ciclo Otto. A gasolina tornou-se o combustível swing. Seu consumo dependerá da competitividade do etanol em cada safra de cana e milho. A eletrificação da frota leve será sentida primeiro nas metrópoles, moderando o crescimento da demanda líquida, mas sem revertê-la antes de 2030.
  3. Inclusão via GLP. A recuperação da massa salarial manterá o GLP em trajetória positiva. Os programas sociais de subsídio ao botijão impedirão o retorno à lenha, estabilizando a curva da série de GLP em patamar mais elevado.
  4. Ocaso do Óleo Combustível. A tendência da série de óleo combustível é estruturalmente decrescente. Com a expansão das renováveis (eólica e solar) e a entrada de térmicas a gás natural com despacho inflexível, o óleo combustível ficará progressivamente restrito a nichos industriais e bunkers marítimos.

Em síntese, as séries do painel Hedgehog retratam um Brasil resiliente, cuja demanda energética responde mais ao crescimento da renda e à produção de commodities do que ao humor conjuntural de curto prazo. Para o investidor e o formulador de políticas públicas, a transição energética brasileira não se dará por queda abrupta da demanda de fósseis — ao menos não antes de 2030 —, mas pela integração gradual de biocombustíveis em um mercado ainda em expansão.


Anexo de Dados e Tabelas

Tabela 1: Vendas das Distribuidoras de Derivados no Brasil (2023–2024) e Variação

Derivado 2023 (Realizado) 2024 (Realizado) Variação % Tendência 2025–26
Óleo Diesel 65.522 mil m³ 67.422 mil m³ +2,9% Alta (Safra/Agronegócio)
Gasolina C 46.030 mil m³ 44.405 mil m³ −3,5% Estável/Queda (Etanol)
GLP 13.430 mil m³ 13.723 mil m³ +2,2% Alta (Renda/Programas)
QAV 6.531 mil m³ 6.975 mil m³ +6,8% Forte Alta (Turismo)
Óleo Comb. 1.906 mil m³ 1.757 mil m³ −7,8% Baixa (Hidrologia)
TOTAL 133.454 mil m³ 134.329 mil m³ +0,6% Crescimento Moderado

Fonte: Adaptado de ANP, Anuário Estatístico 2025.110

Tabela 2: Distribuição Regional do Consumo de Combustíveis no Brasil — Share 2024

Região Diesel (%) Gasolina C (%) GLP (%) Característica Econômica Principal
Sudeste 39,1% 39,0% 42,8% Centro industrial e maior frota urbana.
Sul 18,5% 22,8% Polo agroindustrial e logístico.
Nordeste 15,2% 21,8% 24,1% Turismo e consumo familiar em expansão.
Centro-Oeste 16,8% 8,5% Coração do agro: intensidade diesel.
Norte 10,4% 7,9% Dependência logística fluvial e térmica.

Fonte: Elaboração própria com base em dados da ANP, Anuário Estatístico 2025.1


Perguntas Frequentes sobre Consumo de Combustíveis no Brasil

Qual combustível é mais consumido no Brasil?

O óleo diesel é o combustível mais consumido no Brasil, representando pouco mais de 50% do volume total de derivados de petróleo comercializados em 2024.1 Essa predominância reflete a estrutura logística brasileira — fortemente dependente do modal rodoviário — e a pujança do agronegócio, principal consumidor de diesel no país.

Por que o consumo de gasolina caiu em 2024?

O consumo de Gasolina C recuou 3,53% em 2024, não por redução da mobilidade, mas por substituição pelo etanol hidratado.1 Com a frota brasileira majoritariamente flex-fuel, os consumidores optaram pelo etanol nos estados onde a paridade de preços ficou abaixo de 70%. A oferta crescente de etanol de milho também contribuiu para manter os preços do biocombustível competitivos durante todo o ano.

O consumo de diesel continua crescendo no Brasil?

Sim. O consumo de diesel no Brasil cresceu 2,9% em 2024 e deve atingir novo recorde em 2025, com projeção de 70,5 bilhões de litros segundo a EPE.715 O crescimento do agronegócio, as obras de infraestrutura do Novo PAC e a logística rodoviária mantêm a demanda estruturalmente elevada.

O que é a Lei do Combustível do Futuro?

A Lei 14.993/2024, conhecida como Lei do Combustível do Futuro, estabelece mandatos progressivos de descarbonização para o setor de combustíveis no Brasil.31314 Ela prevê ampliação da mistura de etanol na gasolina (até 35%), aumento do teor de biodiesel no diesel (rumo ao B20 em 2030) e criação de programas de combustível sustentável de aviação (SAF).

Qual a relação entre PIB e consumo de combustíveis no Brasil?

Historicamente, existe uma correlação positiva entre crescimento econômico e consumo de energia no Brasil. A elasticidade-renda do consumo de derivados situou-se acima de 1 por muitos anos, embora dados recentes de 2024–2025 sugiram um desacoplamento marginal, provocado pela penetração de biocombustíveis e pela eletrificação incipiente da frota.14


Referências


  1. ANP — Anuário Estatístico Brasileiro do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis 2025. Disponível em: https://www.gov.br/anp/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/anuario-estatistico/anuario-estatistico-brasileiro-do-petroleo-gas-natural-e-biocombustiveis-2025. Acesso em: 15 fev. 2026. 

  2. Fecombustíveis — ANP divulga dados consolidados do setor regulado em 2024. Disponível em: https://www.fecombustiveis.org.br/noticia/anp-divulga-dados-consolidados-do-setor-regulado-em-2024/261306. Acesso em: 15 fev. 2026. 

  3. Poder360 — Lei 14.993/2024 (Lei do Combustível do Futuro). Disponível em: https://static.poder360.com.br/2024/10/lei-14993-2024-combustivel-do-futuro.pdf. Acesso em: 15 fev. 2026. 

  4. EPE — Perspectivas para o Mercado Brasileiro de Combustíveis no Curto Prazo, edição dezembro de 2025. Disponível em: https://www.epe.gov.br/pt/imprensa/noticias/epe-publica-a-edicao-de-dezembro-de-2025-das-perspectivas-para-o-mercado-brasileiro-de-combustiveis-no-curto-prazo. Acesso em: 15 fev. 2026. 

  5. EPE — Nota de Esclarecimentos: Combustível do Futuro. Disponível em: https://www.epe.gov.br/sites-pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/PublicacoesArquivos/publicacao-873/topico-745/Nota%20de%20Esclarecimentos%20-%20EPE_Combust%C3%ADvel%20do%20Futuro.pdf. Acesso em: 15 fev. 2026. 

  6. Agência Brasil — Petrobras nega impacto da política de preços em redução de lucro. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2025-02/petrobras-nega-impacto-da-politica-de-precos-em-reducao-de-lucro. Acesso em: 15 fev. 2026. 

  7. Fecombustíveis — Consumo de diesel caminha para novo recorde no Brasil em 2025, diz EPE. Disponível em: https://www.fecombustiveis.org.br/noticia/consumo-de-diesel-caminha-para-novo-recorde-no-brasil-em-2025-diz-epe/261178. Acesso em: 15 fev. 2026. 

  8. Embrapa/Ainfo — Elasticidades para gasolina e etanol em São Paulo. Disponível em: https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/169818/1/Elasticidade-para-gasolina-e-etanol-em-Sao-Paulo.pdf. Acesso em: 15 fev. 2026. 

  9. UFPE — Elasticidades de curto e longo prazos da demanda por álcool hidratado no Brasil. Disponível em: https://repositorio.ufpe.br/bitstream/123456789/4017/1/arquivo3746_1.pdf. Acesso em: 15 fev. 2026. 

  10. ANP — Seção 3: Comercialização e Distribuição de Derivados. Anuário Estatístico 2025. Disponível em: https://www.gov.br/anp/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/anuario-estatistico/arquivos-anuario-estatistico-2025/secao-3/secao-3_revsci.pdf. Acesso em: 15 fev. 2026. 

  11. JOTA — A reforma tributária e o setor de combustíveis. Disponível em: https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/a-reforma-tributaria-e-o-setor-de-combustiveis. Acesso em: 15 fev. 2026. 

  12. Mariz de Oliveira e Siqueira Campos Advogados — Combustíveis: Reforma Tributária. Disponível em: https://www.marizadvogados.com.br/wp-content/uploads/2025/02/Combustiveis-REFORMA-TRIBUTARIA-.pdf. Acesso em: 15 fev. 2026. 

  13. Orizon — Tudo sobre a Lei do Combustível do Futuro, aprovada em 2024. Disponível em: https://orizonvr.com.br/tudo-sobre-a-lei-do-combustivel-do-futuro-aprovada-em-2024/. Acesso em: 15 fev. 2026. 

  14. EPE — Lei Combustível do Futuro: Nota de Esclarecimentos. Disponível em: https://www.epe.gov.br/sites-pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/PublicacoesArquivos/publicacao-873/topico-745/Nota%20de%20Esclarecimentos%20-%20EPE_Combust%C3%ADvel%20do%20Futuro.pdf. Acesso em: 15 fev. 2026. 

  15. Fecombustíveis / Sindiminas — Consumo de diesel caminha para novo recorde no Brasil em 2025, diz EPE. Disponível em: https://sindiminas.org.br/2025/06/16/consumo-de-diesel-caminha-para-novo-recorde-no-brasil-em-2025-diz-epe/. Acesso em: 15 mar. 2026. 

  16. AgFeed — Do frenesi do etanol de milho à promessa do B16: setor de biocombustíveis mantém o pé no acelerador. Disponível em: https://agfeed.com.br/economia/perspectiva-2026/do-frenesi-do-etanol-de-milho-a-promessa-do-b16-setor-de-biocombustiveis-mantem-o-pe-no-acelerador/. Acesso em: 15 mar. 2026. 

  17. GNPW — Energia sustentável em 2026: o Brasil no centro da transição energética global. Disponível em: https://www.gnpw.com.br/energia-pt/energia-sustentavel-em-2026-o-brasil-no-centro-da-transicao-energetica-global/. Acesso em: 15 mar. 2026. 

  18. WayCarbon — Transição energética: entre avanços e limites — aprendizados de 2025 e perspectivas para 2026. Disponível em: https://waycarbon.com/pt/blog/transicao-energetica-entre-avancos-e-limites-aprendizados-de-2025-e-perspectivas-para-2026/. Acesso em: 15 mar. 2026. 

  19. Sicompar / Centro de Liderança Pública — Biocombustíveis no Brasil devem receber R\$ 106 bilhões até 2035. Disponível em: https://sicompar.org.br/2026/01/22/biocombustiveis-no-brasil-devem-receber-r106-bilhoes-ate-2035-com-expansao-de-etanol-biodiesel-e-saf-impulsionada-pela-lei-do-combustivel-do-futuro/. Acesso em: 15 mar. 2026.