Capa de O Pulso da Economia Energética: Uma Análise Estrutural das Séries de Consumo de Derivados de Petróleo no Brasil (1990-2026)

O Pulso da Economia Energética: Uma Análise Estrutural das Séries de Consumo de Derivados de Petróleo no Brasil (1990-2026)

Publicado: 2026-02-16 20:18 Atualizado: 2026-03-02 02:06 Por: Komesu, D.K.

O mercado de combustíveis no Brasil transcende a condição de setor econômico: ele dita o ritmo da atividade produtiva, calibra as expectativas de inflação e condiciona a mobilidade social. Analisar as séries temporais de consumo mensal de derivados de petróleo — Gasolina, GLP, Óleo Combustível, Óleo Diesel e Demais Derivados — oferece ao economista e ao investidor uma radiografia precisa da macroeconomia brasileira.

Este relatório utiliza as séries da plataforma Hedgehog para interpretar a evolução do consumo de combustíveis e derivados no Brasil. O período de análise abrange desde a estabilização econômica dos anos 1990 até as projeções para 2026, com ênfase nas transformações ocorridas entre 2024 e o início de 2026. O mercado atravessa uma transição estrutural pressionada por três vetores simultâneos: a recuperação da renda disponível das famílias, a nova arquitetura regulatória estabelecida pela Lei do Combustível do Futuro (Lei 14.993/2024)3 e a dinâmica de preços relativos entre combustíveis fósseis e biocombustíveis.

No cenário vigente, com dados consolidados até fevereiro de 2026, os indicadores apontam que o Brasil superou definitivamente as sequelas da pandemia de COVID-19 no setor energético. O consumo total de derivados, acompanhado na série agregada de consumo total, rompeu barreiras históricas, impulsionado pela resiliência do agronegócio (Diesel) e pela retomada da mobilidade urbana (Ciclo Otto). A composição desse consumo, contudo, mudou de forma estrutural. A elasticidade-preço cruzada entre gasolina e etanol nunca havia sido tão intensamente testada, enquanto a dependência de importações de diesel — mesmo com o crescimento da produção doméstica — expõe gargalos logísticos críticos no Arco Norte.

A seguir, a análise por derivado, fundamentada em teoria econômica, dados da ANP e projeções da EPE.

Consumo de derivados de petróleo

Consumo de derivados de petróleo (Gasolina, GLP, Óleo Combustível, Óleo Diesel, Demais Derivados, To...

Carregando...


O Panorama Agregado: Tendências do Consumo Total de Derivados

Análise da Série Histórica e Correlação com o PIB

Consumo de derivados de petróleo - Total

Série 1398 • Barris/dia (mil) • Mensal

Carregando...

A curva de consumo total de derivados de petróleo, visível na série de consumo total, exibe uma inclinação positiva secular, interrompida apenas por choques exógenos de magnitude relevante: a crise financeira global de 2008, a recessão brasileira de 2014–2016 e a pandemia de 2020.

Historicamente, a elasticidade-renda da demanda por energia no Brasil situou-se acima da unidade — ou seja, para cada 1% de crescimento do PIB, o consumo de derivados tendia a crescer mais de 1%, refletindo a motorização tardia da classe média e a expansão contínua da fronteira agrícola. Os dados de 2024 e 2025, contudo, sugerem um desacoplamento marginal em curso. Enquanto o PIB avança impulsionado por serviços e pelo agronegócio, a intensidade energética de derivados fósseis começa a encontrar competição na eletrificação incipiente e, sobretudo, na penetração cada vez mais profunda dos biocombustíveis — Etanol e Biodiesel.

Em 2024, as vendas totais de derivados pelas distribuidoras somaram 134,3 milhões de m³, registrando alta de 0,6% sobre 2023.110 Esse crescimento aparentemente modesto encobre uma divergência setorial relevante: o Diesel e o QAV puxam a curva para cima, enquanto a Gasolina C e o Óleo Combustível atuam como âncoras, em função da substituição por biocombustíveis e da hidrologia favorável, respectivamente.1

Sazonalidade e Volatilidade

A série total exibe sazonalidade pronunciada, visível nos picos e vales do painel de consumo de derivados e da série de consumo total.

Os picos ocorrem tipicamente no segundo semestre (Q3 e Q4), coincidindo com o escoamento da safra agrícola e a intensificação do comércio e do transporte nas festas de fim de ano. Os vales concentram-se no primeiro trimestre (Q1), historicamente mais fraco em atividade industrial e logística. O episódio mais marcante — o "Dente" de 2020 — representou o maior teste de estresse da história do setor. A recuperação em "V" observada no Diesel e a recuperação em "U" na Gasolina ilustram com precisão a diferença de essencialidade entre o transporte de carga (inelástico) e o de passageiros (elástico).


Óleo Diesel: O Motor do Agronegócio e da Infraestrutura

Consumo de derivados de petróleo - Óleo diesel

Série 1396 • Barris/dia (mil) • Mensal

Carregando...

O Óleo Diesel não é apenas um combustível: é um insumo de produção. Representando pouco mais de 50% do volume total de derivados comercializados em 2024,1 sua curva de consumo na série de óleo diesel constitui a proxy mais fiel da atividade econômica real do Brasil.

Série Histórica e Dinâmica 2024–2026

A série de óleo diesel revela uma tendência de crescimento robusto e quase linear desde 1990, com aceleração notável nos últimos cinco anos. Em 2024, o volume de vendas atingiu o recorde de aproximadamente 67,4 milhões de m³, crescendo 2,9% em relação ao ano anterior.110

Três fatores econômicos explicam essa trajetória:

1. O Superciclo do Agronegócio. O Brasil consolidou-se como principal fornecedor global de grãos e proteínas. A expansão da fronteira agrícola para o Matopiba e o Centro-Oeste exige consumo intensivo de diesel, tanto no maquinário de plantio e colheita quanto no escoamento rodoviário. A correlação entre o volume da safra de grãos e o consumo de diesel no Q3 é elevada e estrutural — em dezembro de 2025, o consumo de Diesel B subiu 7,3% em termos interanuais, antecipando uma safra recorde para 2026.2

2. Diesel B e o Mandato de Biodiesel. A série histórica reflete o consumo de "Diesel B" (mistura de diesel fóssil e biodiesel). A Lei do Combustível do Futuro (Lei 14.993/2024)34 elevou progressivamente o teor obrigatório de biodiesel, com o mandato caminhando para B14/B15. Esse arranjo produz um efeito duplo: sustenta a demanda volumétrica total do setor, ao mesmo tempo que reduz a participação do Diesel A (fóssil puro). O aumento do mandato cria demanda rígida para o complexo soja, blindando parcialmente o setor agrícola de oscilações de preços internacionais — ainda que eleve o custo logístico final ao consumidor.

3. Obras de Infraestrutura (Novo PAC). A retomada de grandes obras civis ao longo de 2024 e 2025 operou como vetor adicional de demanda, especialmente para o diesel empregado em maquinário pesado fora de estrada.

Tabela: Evolução do Mercado de Diesel (2023–2026)

Indicador 2023 2024 2025 (Proj. EPE) 2026 (Proj.)
Vendas Totais (Mil m³) 65.522 67.422 ~70.500 ~72.000
Variação Anual +2,9% ~+4,6% ~+2,1%
Dependência Externa ~23% ~25% ~24% ~22%
Principal Driver Recuperação Safra Recorde Safra + PAC Safra + Exportação

Fonte: Dados históricos ANP, Anuário Estatístico 2025.1 Projeções EPE, edição dezembro de 2025.478

Desafios Logísticos e Dependência de Importação

Apesar do crescimento da produção doméstica nas refinarias (RPBC, REPLAN, RLAST), o Brasil permanece estruturalmente deficitário em diesel. Da ordem de um quarto da demanda interna é atendida via importação — valor que compila dados da ANP e estimativas setoriais.1210 A geopolítica do diesel se transformou profundamente entre 2023 e 2025, com a Rússia tornando-se o principal fornecedor de baixo custo. Essa dependência de um fornecedor sujeito a sanções cria um risco de cauda para a segurança energética nacional, caso as restrições do bloco ocidental se aprofundem ou a logística no Mar Báltico seja interrompida.


Gasolina C e Etanol: A Batalha dos Preços Relativos (Ciclo Otto)

Consumo de derivados de petróleo - Gasolina

Série 1393 • Barris/dia (mil) • Mensal

Carregando...

A série de consumo de gasolina revela um comportamento muito mais volátil e sensível a preços do que o diesel, exibindo um "platô" de consumo nos últimos anos que contrasta com a trajetória ascendente do óleo diesel.

O Fenômeno da Substituição (2024–2025)

Em 2024, o consumo de Gasolina C recuou 3,53%, totalizando aproximadamente 44,4 milhões de m³, enquanto o consumo total do Ciclo Otto (Gasolina + Etanol) continuou a crescer.1 Esse movimento não reflete uma contração da mobilidade, mas uma substituição econômica racional: a frota brasileira de veículos leves é majoritariamente flex-fuel, e o consumidor arbitra cotidianamente entre os dois combustíveis na bomba, guiado por preços relativos.

A Economia da Paridade (70%). Durante grande parte de 2024 e 2025, o preço do etanol hidratado situou-se abaixo da paridade técnica de 70% em relação à gasolina nos principais mercados consumidores (São Paulo, Minas Gerais, Goiás). Dois fatores sustentaram essa competitividade:

  1. Oferta de Etanol de Milho. A entrada expressiva do etanol de milho no mercado reduziu a entressafra tradicional da cana-de-açúcar, mantendo os preços do biocombustível em patamares competitivos ao longo de todo o ano.
  2. Política de Preços da Petrobras. A nova estratégia comercial da estatal, que abandonou o Preço de Paridade Internacional (PPI) estrito, evitou o repasse automático da volatilidade cambial para a gasolina, mas preservou o patamar do fóssil em nível suficiente para assegurar a competitividade do renovável.6

A Curva "Dente de Serra" da Gasolina

Observando a série de consumo de gasolina, identificam-se picos históricos em 2014 — durante o congelamento administrativo de preços — e em 2017/2018. O recuo recente de 2024/2025 é, paradoxalmente, um sinal de saúde do mercado de biocombustíveis.

No plano regulatório, a Lei do Combustível do Futuro (Lei 14.993/2024) elevou a faixa permitida de mistura de etanol anidro na gasolina C para até 35%, abrindo espaço regulatório para o E30, cuja viabilidade técnica já foi demonstrada pelo Instituto Mauá.345 A adoção efetiva de uma mistura mais alta depende de decisão do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). À medida que essas decisões forem implementadas, o volume de gasolina A tenderá a cair mecanicamente, achatando a curva da série de Gasolina C.45

Projeções e Elasticidades

Estudos da literatura econômica sobre os mercados de gasolina e etanol no Brasil89 demonstram que a elasticidade-preço cruzada da gasolina em relação ao etanol é assimétrica e elevada no longo prazo. Para 2026, projeta-se que o consumo de Gasolina C se estabilize ou recue levemente: embora o aumento da renda média normalmente favoreça a gasolina — pela conveniência da maior autonomia —, esse efeito é contrabalançado por incentivos fiscais estruturais ao etanol e pela penetração lenta, mas constante, de veículos elétricos e híbridos nos grandes centros urbanos.


Gás Liquefeito de Petróleo (GLP): O Termômetro da Desigualdade Social

Consumo de derivados de petróleo - GLP

Série 1394 • Barris/dia (mil) • Mensal

Carregando...

A série de consumo de GLP apresenta uma característica singular: baixa volatilidade sazonal combinada com alta sensibilidade à renda das famílias de menor poder aquisitivo. O GLP é um bem essencial — o gás de cozinha —, com demanda relativamente inelástica até um limiar de renda a partir do qual ocorre substituição por lenha ou carvão, configurando pobreza energética.

Recuperação da Renda e Políticas Públicas (2024–2026)

Após um período de estagnação e retrocesso no consumo per capita entre 2021 e 2022 — decorrente da inflação de alimentos e combustíveis —, a série de GLP voltou a crescer em 2024 (+2,18%) e manteve trajetória positiva em 2025.1

Três fatores impulsionaram essa retomada:

  1. Subsídio ao botijão (Auxílio Gás dos Brasileiros). A reformulação recente do programa federal reforçou o vínculo entre o benefício e a compra efetiva do GLP, sustentando o consumo na base da pirâmide de renda.14
  2. Aumento da Massa Salarial Real. Com o desemprego nas mínimas históricas e o ganho real do salário-mínimo, famílias retornaram ao uso exclusivo do GLP para cocção, abandonando combustíveis alternativos de menor custo imediato. A EPE projeta perspectivas favoráveis para o segmento em 2026.4
  3. Capilaridade Regional. O crescimento foi disseminado pelo território. O Sudeste ainda concentra 42,8% do consumo, mas o Nordeste (24,1%) apresentou taxas de crescimento robustas, correlacionadas com a expansão dos programas de transferência de renda.110

Estrutura de Mercado

O mercado de GLP é um oligopólio natural na etapa de distribuição, com quatro empresas (Copagaz, Ultragaz, Nacional Gás e Supergasbras) detendo quase 90% da participação de mercado.10 A regulação da ANP concentra-se em garantir a livre concorrência e prevenir a formação de cartéis na revenda — desafio recorrente, especialmente em municípios do interior.


Óleo Combustível e Demais Derivados: A Indústria e a Energia Térmica

As séries de óleo combustível e demais derivados narram a trajetória da infraestrutura e da matriz elétrica brasileira ao longo de três décadas.

Óleo Combustível: A Variável de Ajuste Hidrológico

Consumo de derivados de petróleo - Óleo combustível

Série 1395 • Barris/dia (mil) • Mensal

Carregando...

A série de óleo combustível exibe uma tendência secular de declínio, pontuada por picos abruptos que correspondem, quase perfeitamente, às crises hídricas brasileiras (2001, 2014 e 2021). Em 2024, o consumo recuou 7,84%.1 A explicação é direta: a hidrologia favorável permitiu ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) desligar as termoelétricas a óleo combustível — as mais caras e poluentes na ordem de mérito do despacho. O colapso do consumo na Região Norte (-39,2%) reflete ainda a interligação progressiva de sistemas isolados ao Sistema Interligado Nacional (SIN) e a substituição de térmicas a óleo por gás natural na Amazônia.

Demais Derivados: O Pulso da Construção Civil

Consumo de derivados de petróleo - Demais derivados

Série 1397 • Barris/dia (mil) • Mensal

Carregando...

A categoria Demais Derivados é composta majoritariamente por asfalto, coque de petróleo, nafta e solventes. A curva ascendente recente reflete dois vetores principais:

  1. Asfalto e o Ciclo Político. O consumo de cimentos asfálticos de petróleo (CAP) acelera em anos eleitorais e em períodos de grandes investimentos públicos, como o Novo PAC.
  2. Nafta e a Indústria Petroquímica. A demanda por nafta deriva da produção de plásticos e resinas, competindo diretamente com o etano importado. A estabilidade econômica de 2025 favoreceu a demanda por embalagens e bens duráveis, sustentando o consumo nesse segmento.

Querosene de Aviação (QAV): A Retomada do Turismo e dos Negócios

A série de QAV foi a mais impactada pela pandemia, com queda vertical em 2020. Os dados de 2024 e 2025 confirmam uma recuperação vigorosa e consistente.

Rumo ao Recorde Histórico

Com crescimento de 6,8% em 2024, alcançando cerca de 7 milhões de m³,1 o mercado de aviação aproximou-se rapidamente dos níveis pré-crise econômica de 2014. A EPE projeta que 2026 deverá estabelecer um novo recorde histórico de consumo de QAV, com volume superior ao pico anterior, em um cenário de expansão contínua do transporte aéreo.4 O destaque regional é o Norte do Brasil, onde o consumo de QAV registrou aumento muito superior à média nacional, refletindo uma nova dinâmica de turismo ecológico e de negócios na região, além de melhoras significativas na conectividade aérea intrarregional.110


O Novo Arcabouço Regulatório e Político (2024–2026)

A leitura das séries de consumo seria incompleta sem a compreensão das regras que alteram a inclinação das curvas. Dois marcos regulatórios merecem atenção especial.

Reforma Tributária: O Fim da Guerra Fiscal

A regulamentação complementar aprovada em 2025 consolidou a cobrança monofásica e ad rem (valor fixo por quantidade, não por preço) para o IBS e CBS sobre combustíveis — conforme o marco da reforma tributária em andamento.1112

Do ponto de vista econômico, a unificação das alíquotas em todo o território nacional elimina a arbitragem tributária e os "passeios" de notas fiscais entre estados. A tendência é de formalização do mercado, com redução da sonegação que historicamente distorcia os dados de consumo de etanol e gasolina. No curto prazo (2025–2026), a alíquota uniforme poderá encarecer o combustível em estados com ICMS historicamente baixo (como São Paulo) e barateá-lo em estados com ICMS alto (como Rio de Janeiro), promovendo um leve realinhamento geográfico do consumo.

Lei do Combustível do Futuro (Lei 14.993/2024)

Esta é a legislação mais transformadora para a próxima década no setor energético brasileiro.31314 Ela estabelece mandatos progressivos de descarbonização em múltiplos segmentos:

  • Etanol: teto de mistura na gasolina elevado para até 35%, com espaço regulatório para adoção de E30 mediante decisão do CNPE.35
  • Biodiesel: mandato com trajetória de crescimento chegando a 20% (B20) até 2030.
  • Diesel Verde (HVO) e SAF: criação de programas mandatórios de mistura para aviação e transporte pesado.

O impacto nas séries é estrutural: espera-se que a série de gasolina C continue cedendo participação relativa ao etanol, enquanto a série de diesel sustentará seu volume, mas com composição química progressivamente mais renovável — menos petróleo, mais óleos vegetais.413

Política de Preços da Petrobras

O abandono do PPI estrito e a adoção de uma estratégia que internaliza as vantagens competitivas do refino nacional reduziram a volatilidade dos preços na bomba.6 Em 2025, a gasolina ficou mais de 300 dias sem reajuste.7 Para o analista econômico, esse resultado significa que o preço do combustível deixou de funcionar como um choque de oferta aleatório para se tornar uma variável mais previsível, ancorando expectativas inflacionárias e facilitando o planejamento logístico das empresas.


Conclusão e Perspectivas para 2026–2030

A análise das séries de consumo mensal de derivados de petróleo no Brasil aponta para uma economia que ainda cresce sustentada por energia densa. Quatro tendências estruturais definem o horizonte 2026–2030:

  1. Hegemonia do Diesel. O Brasil continuará sendo uma economia movida a diesel. A expansão do agronegócio assegura que a curva da série de óleo diesel mantenha sua inclinação positiva. O desafio central será logístico — tancagem, portos, infraestrutura no Arco Norte — e não de demanda.
  2. Transição no Ciclo Otto. A gasolina tornou-se o combustível swing. Seu consumo dependerá da competitividade do etanol em cada safra de cana e milho. A eletrificação da frota leve será sentida primeiro nas metrópoles, moderando o crescimento da demanda líquida, mas sem revertê-la antes de 2030.
  3. Inclusão via GLP. A recuperação da massa salarial manterá o GLP em trajetória positiva. Os programas sociais de subsídio ao botijão impedirão o retorno à lenha, estabilizando a curva da série de GLP em patamar mais elevado.
  4. Ocaso do Óleo Combustível. A tendência da série de óleo combustível é estruturalmente decrescente. Com a expansão das renováveis (eólica e solar) e a entrada de térmicas a gás natural com despacho inflexível, o óleo combustível ficará progressivamente restrito a nichos industriais e bunkers marítimos.

Em síntese, as séries do painel Hedgehog retratam um Brasil resiliente, cuja demanda energética responde mais ao crescimento da renda e à produção de commodities do que ao humor conjuntural de curto prazo. Para o investidor e o formulador de políticas públicas, a transição energética brasileira não se dará por queda abrupta da demanda de fósseis — ao menos não antes de 2030 —, mas pela integração gradual de biocombustíveis em um mercado ainda em expansão.


Anexo de Dados e Tabelas

Tabela 1: Vendas das Distribuidoras de Derivados (2023–2024) e Variação

Derivado 2023 (Realizado) 2024 (Realizado) Variação % Tendência 2025–26
Óleo Diesel 65.522 mil m³ 67.422 mil m³ +2,9% Alta (Safra/Agronegócio)
Gasolina C 46.030 mil m³ 44.405 mil m³ −3,5% Estável/Queda (Etanol)
GLP 13.430 mil m³ 13.723 mil m³ +2,2% Alta (Renda/Programas)
QAV 6.531 mil m³ 6.975 mil m³ +6,8% Forte Alta (Turismo)
Óleo Comb. 1.906 mil m³ 1.757 mil m³ −7,8% Baixa (Hidrologia)
TOTAL 133.454 mil m³ 134.329 mil m³ +0,6% Crescimento Moderado

Fonte: Adaptado de ANP, Anuário Estatístico 2025.110

Tabela 2: Distribuição Regional do Consumo — Share 2024

Região Diesel (%) Gasolina C (%) GLP (%) Característica Econômica Principal
Sudeste 39,1% 39,0% 42,8% Centro industrial e maior frota urbana.
Sul 18,5% 22,8% Polo agroindustrial e logístico.
Nordeste 15,2% 21,8% 24,1% Turismo e consumo familiar em expansão.
Centro-Oeste 16,8% 8,5% Coração do agro: intensidade diesel.
Norte 10,4% 7,9% Dependência logística fluvial e térmica.

Fonte: Elaboração própria com base em dados da ANP, Anuário Estatístico 2025.1


Referências


  1. ANP — Anuário Estatístico Brasileiro do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis 2025. Disponível em: https://www.gov.br/anp/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/anuario-estatistico/anuario-estatistico-brasileiro-do-petroleo-gas-natural-e-biocombustiveis-2025. Acesso em: 15 fev. 2026. 

  2. Fecombustíveis — ANP divulga dados consolidados do setor regulado em 2024. Disponível em: https://www.fecombustiveis.org.br/noticia/anp-divulga-dados-consolidados-do-setor-regulado-em-2024/261306. Acesso em: 15 fev. 2026. 

  3. Poder360 — Lei 14.993/2024 (Lei do Combustível do Futuro). Disponível em: https://static.poder360.com.br/2024/10/lei-14993-2024-combustivel-do-futuro.pdf. Acesso em: 15 fev. 2026. 

  4. EPE — Perspectivas para o Mercado Brasileiro de Combustíveis no Curto Prazo, edição dezembro de 2025. Disponível em: https://www.epe.gov.br/pt/imprensa/noticias/epe-publica-a-edicao-de-dezembro-de-2025-das-perspectivas-para-o-mercado-brasileiro-de-combustiveis-no-curto-prazo. Acesso em: 15 fev. 2026. 

  5. EPE — Nota de Esclarecimentos: Combustível do Futuro. Disponível em: https://www.epe.gov.br/sites-pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/PublicacoesArquivos/publicacao-873/topico-745/Nota%20de%20Esclarecimentos%20-%20EPE_Combust%C3%ADvel%20do%20Futuro.pdf. Acesso em: 15 fev. 2026. 

  6. Agência Brasil — Petrobras nega impacto da política de preços em redução de lucro. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2025-02/petrobras-nega-impacto-da-politica-de-precos-em-reducao-de-lucro. Acesso em: 15 fev. 2026. 

  7. Fecombustíveis — Consumo de diesel caminha para novo recorde no Brasil em 2025, diz EPE. Disponível em: https://www.fecombustiveis.org.br/noticia/consumo-de-diesel-caminha-para-novo-recorde-no-brasil-em-2025-diz-epe/261178. Acesso em: 15 fev. 2026. 

  8. Embrapa/Ainfo — Elasticidades para gasolina e etanol em São Paulo. Disponível em: https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/169818/1/Elasticidade-para-gasolina-e-etanol-em-Sao-Paulo.pdf. Acesso em: 15 fev. 2026. 

  9. UFPE — Elasticidades de curto e longo prazos da demanda por álcool hidratado no Brasil. Disponível em: https://repositorio.ufpe.br/bitstream/123456789/4017/1/arquivo3746_1.pdf. Acesso em: 15 fev. 2026. 

  10. ANP — Seção 3: Comercialização e Distribuição de Derivados. Anuário Estatístico 2025. Disponível em: https://www.gov.br/anp/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/anuario-estatistico/arquivos-anuario-estatistico-2025/secao-3/secao-3_revsci.pdf. Acesso em: 15 fev. 2026. 

  11. JOTA — A reforma tributária e o setor de combustíveis. Disponível em: https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/a-reforma-tributaria-e-o-setor-de-combustiveis. Acesso em: 15 fev. 2026. 

  12. Mariz de Oliveira e Siqueira Campos Advogados — Combustíveis: Reforma Tributária. Disponível em: https://www.marizadvogados.com.br/wp-content/uploads/2025/02/Combustiveis-REFORMA-TRIBUTARIA-.pdf. Acesso em: 15 fev. 2026. 

  13. Orizon — Tudo sobre a Lei do Combustível do Futuro, aprovada em 2024. Disponível em: https://orizonvr.com.br/tudo-sobre-a-lei-do-combustivel-do-futuro-aprovada-em-2024/. Acesso em: 15 fev. 2026. 

  14. EPE — Lei Combustível do Futuro: Nota de Esclarecimentos. Disponível em: https://www.epe.gov.br/sites-pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/PublicacoesArquivos/publicacao-873/topico-745/Nota%20de%20Esclarecimentos%20-%20EPE_Combust%C3%ADvel%20do%20Futuro.pdf. Acesso em: 15 fev. 2026.