Indústria Automobilística Brasileira 2025–2026: Produção, Carros Elétricos e o Impacto da China
Publicado: 2026-01-23 21:22 Atualizado: 2026-03-16 01:29 Por: Komesu, D.K.
O Brasil produziu 2,64 milhões de veículos em 2025 (+3,5%), mas a indústria ainda opera com 40% de capacidade ociosa. Ao mesmo tempo, montadoras chinesas como BYD e GWM já dominam mais da metade do mercado de carros elétricos e híbridos no país — e a produção nacional de veículos eletrificados começa em 2026.112
Produção e Venda de Autoveículos
Produção e Venda de autoveículos, segundo dados da Anfavea
Em termos absolutos, o volume de 2025 ainda ficou cerca de 1 milhão de unidades abaixo do pico histórico de 2013, quando o país produziu 3,71 milhões de veículos. O crescimento recente, portanto, é real — mas parcial. O segmento de veículos leves liderou a recuperação, enquanto caminhões e ônibus ficaram praticamente estagnados.
Do lado da demanda, o mercado interno sustentou a indústria graças a vendas diretas corporativas e promoções agressivas no varejo. Nas exportações, a Argentina voltou a ser o destino dominante, respondendo por quase 60% dos embarques — o que reintroduz um risco antigo de dependência excessiva de um único parceiro.
Mas o fenômeno mais disruptivo de 2025 foi outro: a entrada agressiva de veículos eletrificados importados da China, que alterou a dinâmica competitiva e forçou uma resposta regulatória do governo brasileiro via Programa MOVER e recomposição do Imposto de Importação.
Este artigo analisa cada uma dessas dimensões com base nos dados consolidados da Anfavea e em fontes oficiais.
Cenário macroeconômico: o que condiciona a indústria automotiva brasileira
O desempenho do mercado automotivo no Brasil depende diretamente de três variáveis macroeconômicas: renda das famílias, crédito automotivo e taxa de câmbio. Esses fatores determinam simultaneamente a demanda por veículos e o custo de produção das montadoras.
PIB e renda: a base da demanda por veículos
O PIB brasileiro encerrou 2025 com expansão estimada de 2,25%.3 A indústria automotiva tem historicamente alta elasticidade-renda da demanda — variações positivas na renda per capita geram variações mais que proporcionais na procura por automóveis, dado o caráter de bem durável.
Em 2025, o crescimento foi sustentado pelo consumo das famílias e pelo setor de serviços. A massa salarial real se expandiu, mas o endividamento das famílias permaneceu elevado, limitando a capacidade de financiamento de veículos sem prazos estendidos.
Taxa Selic: o canal de transmissão para o setor automotivo
A taxa básica de juros é a variável mais crítica para uma indústria intensiva em capital, tanto na produção quanto no consumo.
Gráfico: Evolução da taxa Selic (2003–2025)
Taxa de juros - Selic acumulada no mês anualizada base 252
Série 4189 • % a.a. • Mensal
A Selic elevada impacta o setor por dois canais principais:
Custo do crédito ao consumidor (CDC): Com juros na ponta final em dois dígitos anuais, o Custo Efetivo Total (CET) excluiu uma parcela da classe média baixa do mercado de zero-quilômetro, empurrando essa demanda para os seminovos.
Custo de estoque das concessionárias (Floor Plan): O capital de giro imobilizado em estoques encareceu. O giro de estoque observado em dezembro de 2025 foi de 36,59 dias na média geral4 — um equilíbrio tenso entre oferta e demanda.
Inflação sob controle: IPCA dentro da meta
O IPCA encerrou 2025 com alta acumulada de 4,26%, dentro do teto da meta de inflação (4,50%).5
Na prática, a estabilidade de preços preservou o poder de compra dos salários. Do lado industrial, os custos de commodities metálicas (aço, alumínio) apresentaram menor volatilidade, permitindo planejamento mais previsível.
Para 2026, o mercado projeta IPCA entre 4,02% e 4,32%7, mantendo um horizonte de previsibilidade favorável para a precificação de novos modelos.
Taxa de câmbio: favorece exportação, encarece produção
Gráfico: Evolução da taxa de câmbio R\$/US\\$ (2002–2025)
Taxa de câmbio - Livre - Dólar americano (compra) - Média de período - mensal
Série 3697 • u.m.c./US$ • Mensal
O dólar encerrou 2025 cotado a R\$ 5,53.7 Para a indústria automotiva, o câmbio tem efeito duplo:
Exportações: O Real depreciado tornou o veículo brasileiro mais barato em moeda forte, favorecendo a recuperação das vendas para a Argentina e outros mercados latino-americanos em 2025.9
Custos de produção: A dependência de componentes eletrônicos importados (semicondutores, módulos de controle) pressiona custos via pass-through cambial. Em 2025, montadoras absorveram parte desse custo comprimindo margens para não perder volume.
Produção de veículos no Brasil em 2025: números e segmentos
O volume de 2,644 milhões de unidades produzido em 2025 consolida uma trajetória de recuperação gradual — mas o crescimento não foi homogêneo.1
Produção por segmento: leves versus pesados
| Segmento | Produção 2025 (Estimada/Realizada) | Variação A/A | Projeção 2026 | Variação 26/25 |
|---|---|---|---|---|
| Total Autoveículos | 2.644.000 | +3,5% | 2.741.000 | +3,7% |
| Veículos Leves | ~2.492.000 | +3,8% | - | +3,8% |
| Caminhões e Ônibus | 152.000 | +1,4% | 154.000 | +1,4% |
Fonte: Consolidação de dados Anfavea.1
Veículos leves (automóveis e comerciais leves) foram o motor da indústria em 2025, impulsionados por vendas diretas a frotistas e locadoras e pela demanda contínua por SUVs, que oferecem margens de contribuição mais altas. As montadoras têm privilegiado modelos de maior valor agregado em detrimento dos compactos de entrada, cuja rentabilidade é marginal com custos elevados.
Caminhões e ônibus encerraram o ano com 152 mil unidades1 — quase estagnação. As causas são estruturais:
Efeito Euro 6 (Proconve P8): A transição para a nova tecnologia de emissões em 2023 encareceu veículos pesados entre 15% e 25%. O mercado ainda digere esse aumento.
Programa Caminho da Escola: O segmento de ônibus teve suporte do programa federal, que licitou volumes expressivos de ônibus escolares, garantindo uma linha de base de produção.
Capacidade ociosa: o problema estrutural da indústria
Gráfico: Utilização da capacidade instalada na indústria automotiva (2003–2025)
Utilização da capacidade instalada indústria de transformação - Dados dessazonalizados
Série 28554 • Índice • Mensal
Com um parque industrial dimensionado para produzir entre 4,2 e 4,5 milhões de veículos por ano (legado do ciclo 2010–2013), a produção de 2,644 milhões implica ociosidade técnica de aproximadamente 40%.10
As consequências econômicas são relevantes:
Custo fixo elevado por unidade: A baixa utilização impede a diluição eficiente de custos fixos (depreciação, manutenção, administração), elevando o ponto de equilíbrio das montadoras e exigindo preços finais mais altos.
Ajuste na mão de obra: Para mitigar a ociosidade, montadoras recorreram a layoffs, férias coletivas e supressão de turnos em 2024 e 2025. O nível geral de emprego se manteve relativamente estável, mas a pressão por redução de custos permanece.
Obsolescência de plantas: A alta ociosidade das fábricas antigas contrasta com os novos investimentos de BYD e GWM, que adquirem ou constroem novas capacidades (como a antiga fábrica da Ford na Bahia, assumida pela BYD). Parte da capacidade ociosa pode ser economicamente obsoleta para a produção de veículos elétricos.
Evolução histórica da produção de veículos no Brasil (2003–2025)
A série histórica de longo prazo4 revela os ciclos de expansão e retração que marcam a indústria brasileira:
2003–2013 — A "Década de Ouro": A produção saiu de 1,8 milhão de unidades (2003) para o recorde de 3,71 milhões em 2013. O ciclo foi alimentado por superciclo de commodities, crédito farto e aumento real do salário mínimo.
2014–2016 — Crise estrutural: O colapso econômico derrubou a produção para 2,16 milhões em 2016. Perda de renda, estresse de crédito e ociosidade disparada.
2017–2022 — Recuperação e choque pandêmico: A retomada lenta foi interrompida pela pandemia e pela crise global de semicondutores. As linhas de montagem operaram em "stop-and-go", com oferta restrita e preços em alta.
2023–2025 — O novo normal: A indústria busca equilíbrio em torno de 2,6 a 2,8 milhões de unidades. O crescimento atual não vem de crédito barato, mas de demanda de reposição, vendas corporativas e transição tecnológica.
Mercado interno: vendas, canais e gestão de estoques
O licenciamento de veículos novos (emplacamentos) é a métrica que mede a absorção real do mercado. Em 2025, o mercado interno foi o principal pilar de sustentação da indústria.
Desempenho de vendas em 2025
A média diária de vendas de veículos novos cresceu 12% em 2025 — a maior taxa de crescimento entre os dez maiores mercados automotivos do mundo.11 Esse desempenho recolocou o Brasil na 8ª posição no ranking mundial de produtores de veículos.11
O "rali de fim de ano" em dezembro foi impulsionado por promoções agressivas de queima de estoque: montadoras buscaram limpar pátios de modelos 2025 e, estrategicamente, desovar importados antes das mudanças tributárias de 2026.1
Vendas diretas versus varejo: uma distorção estrutural
Varejo (B2C): Vendas para pessoa física foram altamente sensíveis à Selic. Consumidores dependentes de financiamento migraram para modelos de entrada e seminovos.
Vendas diretas (B2B): Frotistas, locadoras e produtores rurais mantiveram a demanda aquecida. Em alguns meses, as vendas diretas chegaram a representar quase 50% dos emplacamentos de veículos leves.
O alto share de vendas diretas garante volume para as montadoras, mas a preços com descontos de 20% a 30%. Para compensar, as fabricantes elevam os preços de tabela no varejo — criando uma distorção de preços relativos no mercado.
Estoques de importados: a anomalia de 2025
A análise dos níveis de estoque revela uma distorção causada por antecipação regulatória:
- Estoque total: 351.905 unidades em dezembro de 2025, com giro de 36,59 dias — aparentemente saudável.4
- Estoque de nacionais: Giro de apenas 18,75 dias — mercado ajustado, com risco de desabastecimento pontual.
- Estoque de importados: Giro de 117,26 dias em dezembro4, com picos superiores a 150 dias em meses anteriores.
A causa: importadores e montadoras (principalmente BYD e GWM) aceleraram importações no segundo semestre de 2025 para nacionalizar veículos com alíquotas antigas do Imposto de Importação, antes do aumento programado para 2026.
A consequência: o primeiro semestre de 2026 terá uma "bolha de oferta" de veículos importados já nacionalizados — especialmente elétricos e híbridos. Os preços devem permanecer artificialmente competitivos enquanto o estoque antigo durar, adiando o repasse do aumento tributário ao consumidor.
A revolução dos carros elétricos e híbridos no Brasil
O ano de 2025 marcou a consolidação da mobilidade elétrica no mercado automotivo brasileiro. O que era nicho de luxo tornou-se segmento de volume com impacto na concorrência.
Recordes de vendas de carros elétricos e híbridos em 2025
O mercado de veículos eletrificados (HEV, PHEV e BEV) bateu recorde: 223.912 unidades vendidas, crescimento de 26% sobre o ano anterior.12 Esse volume já representa entre 8% e 10% do market share total, dependendo do mês.
BYD lidera com mais de 50% do mercado de elétricos
A montadora chinesa BYD vendeu 112.915 unidades, respondendo por 50,4% de todas as vendas de eletrificados no Brasil.12 Somada à GWM e outras marcas asiáticas, a China dominou mais de dois terços desse segmento.
O que isso significa para a concorrência:
Quebra de paradigma de preço: As montadoras chinesas oferecem elétricos e híbridos a preços competitivos com veículos a combustão equivalentes. O consumidor passou a considerar o elétrico como substituto viável — não apenas curiosidade tecnológica.
Reação das marcas tradicionais: A agressividade da BYD e GWM forçou Toyota, Volkswagen, GM e Stellantis a acelerarem seus cronogramas de eletrificação e ajustarem preços para baixo, comprimindo margens.
Impacto na balança comercial e resposta do governo
Pela primeira vez, países fora do Mercosul e México (leia-se China) representaram 50,2% dos importados vendidos no Brasil.1
A resposta do governo: recomposição escalonada do Imposto de Importação, que atingirá 35% em julho de 2026 para elétricos e híbridos.14 O objetivo é forçar a produção local dessas tecnologias.
A resposta das montadoras chinesas foi rápida: BYD (Camaçari-BA) e GWM (Iracemápolis-SP) aceleraram o início da produção nacional em CKD/SKD para 2025/2026, visando escapar da barreira tarifária e acessar os incentivos do Programa MOVER.
Exportações e importações de veículos: a dinâmica de 2025
A inserção internacional da indústria automotiva brasileira viveu em 2025 uma "recuperação concentrada".
Exportações: crescimento forte, mas dependente da Argentina
As exportações brasileiras de veículos cresceram entre 32% e 39% em unidades em 2025.2 A causa primária foi a retomada da demanda na Argentina.
A participação da Argentina no total exportado saltou de 33,6% no primeiro semestre de 2024 para 59,6% no mesmo período de 2025.9
O risco da "re-argentinização": No curto prazo, a retomada argentina ocupa a capacidade ociosa das plantas brasileiras. Mas a dependência excessiva de um único parceiro — cuja economia ainda apresenta volatilidade cambial e inflacionária — é um risco estrutural.
Houve crescimento também para Colômbia (+38%) e Chile (+34,7%), mas o volume absoluto desses mercados ainda não compensa uma eventual crise argentina ou a perda de mercado no México (–18,4%).9
Importações: a China como nova origem dominante
Historicamente, o Brasil importava veículos da Argentina (troca intra-industrial) e do México. Em 2025, a China emergiu como principal origem de importações em valor e volume de novas tecnologias.
Esse fluxo deve diminuir gradativamente ao longo de 2026 com o início da produção local das montadoras chinesas, substituindo a importação de veículos prontos (CBU) pela importação de kits de componentes (CKD) e peças.
A Anfavea projeta queda nas importações ao longo de 2026, com o início da produção nacional de veículos híbridos e elétricos por novos entrantes, o fim dos incentivos à importação de kits SKD/CKD e a recomposição do Imposto de Importação prevista para julho.
Programa MOVER: a nova política industrial para o setor automotivo
O Programa Mobilidade Verde e Inovação (MOVER) é o arcabouço regulatório que define incentivos e obrigações do setor para o ciclo 2024–2030.17
O que é o Programa MOVER
O MOVER sucede o Rota 2030, ampliando o escopo da política industrial para focar na descarbonização completa do ciclo de vida do veículo ("do poço à roda"), e não apenas na eficiência do motor.18
Pilares do programa:
- Sustentabilidade: Metas mandatórias de reciclabilidade veicular e redução de emissões de carbono corporativas.
- Inovação (P&D): Créditos financeiros para empresas que investirem em Pesquisa e Desenvolvimento no Brasil.
Créditos financeiros e incentivos fiscais
O mecanismo central do MOVER é o crédito financeiro, utilizável para abater tributos federais (IPI, PIS/COFINS).
O crédito é calculado como percentual dos dispêndios em P&D e engenharia realizados no país. As alíquotas variam conforme a natureza do projeto, com percentuais elevados para propulsão avançada e semicondutores.
Para acessar os créditos, as empresas devem estar habilitadas no MDIC, operar sob Lucro Real e comprovar regularidade fiscal.19
O MDIC definiu orçamento escalonado que atingirá R\$ 4,1 bilhões em 2028, totalizando mais de R\$ 19 bilhões em créditos financeiros para inovação e descarbonização ao longo do programa.
Investimentos anunciados pelas montadoras
O MOVER catalisou um ciclo de investimentos massivo. A Anfavea estima que os investimentos anunciados para o ciclo até 2028/2029 ultrapassem R\$ 100 bilhões.
A GWM, habilitada no MOVER, anunciou investimentos de R\$ 10 bilhões até 2032, com compromisso de atingir 60% de nacionalização até 2026.21
Em 2026, as empresas habilitadas iniciaram o processo de prestação de contas dos investimentos em P&D realizados nos anos anteriores — o que dará ao governo métricas oficiais sobre o impulso real do programa na cadeia automotiva.
A Reforma Tributária e o setor automotivo
Paralelamente ao MOVER, a Reforma Tributária (Emenda Constitucional 132) introduz mudanças significativas, com transição iniciando em 2026.22
IVA Dual (CBS + IBS): A unificação simplifica a estrutura tributária e elimina a cumulatividade na cadeia de exportação, aumentando a competitividade externa do carro brasileiro no longo prazo.
Fim dos incentivos regionais: A reforma impõe cronograma para extinção de incentivos fiscais regionais (Regime Automotivo do Nordeste, Centro-Oeste). Isso cria incerteza para plantas fora do eixo SP-MG-PR, como Stellantis em Goiana (PE) e BYD em Camaçari (BA), que precisarão buscar competitividade operacional pura.
Imposto Seletivo: Um imposto sobre bens nocivos ao meio ambiente pode penalizar veículos a combustão pura, funcionando como instrumento extrafiscal para acelerar a eletrificação.
Perspectivas e projeções para o mercado automotivo em 2026
Com base na inércia positiva de 2025 e nos novos parâmetros regulatórios, a Anfavea projeta crescimento moderado para 2026, com "otimismo contido" diante de incertezas geopolíticas e da transição pré-reforma tributária.
Projeções consolidadas da Anfavea para 2026
| Indicador | 2025 (Realizado) | 2026 (Projeção) | Crescimento (%) |
|---|---|---|---|
| Produção Total | 2,644 Milhões | 2,741 Milhões | +3,7% |
| Produção Leves | ~2,49 Milhões | ~2,58 Milhões | +3,8% |
| Produção Pesados | 152 Mil | 154 Mil | +1,4% |
| Vendas Internas (Licenciamentos) | ~2,4 Milhões | ~2,5-2,6 Milhões | +2,7% a 6,0% |
| Exportações | Recuperação | Estabilidade/Alta | Dependente ARG |
Fonte: Projeções Anfavea.1
Fatores de impulso (upside)
Ciclo de crédito: Uma eventual queda da Selic no segundo semestre de 2026, caso a inflação surpreenda positivamente, poderia destravar o varejo automotivo.
Safra recorde: Uma safra 2025/2026 robusta do agronegócio pode elevar a demanda por picapes e caminhões pesados acima da projeção conservadora de +1,4%.
Investimentos em infraestrutura: A aceleração das obras do PAC pode aquecer o mercado de caminhões vocacionais e máquinas de construção.
Fatores de risco (downside)
Guerra de preços: A entrada em operação das fábricas chinesas pode desencadear uma guerra de preços que, embora positiva para o consumidor, pode corroer a rentabilidade da indústria.
Volatilidade cambial: Tensões geopolíticas podem pressionar o dólar, encarecendo componentes importados e comprimindo margens.
Crise na Argentina: Qualquer reversão na recuperação argentina impactaria imediatamente 60% das exportações do setor.
Conclusão: a indústria automotiva brasileira se reinventa em 2026
A indústria automobilística brasileira inicia 2026 mais forte do que em qualquer momento desde a pré-pandemia, mas também mais exposta a transformações estruturais irreversíveis.
O ano de 2025 provou que a demanda por mobilidade individual e renovação de frota é resiliente: as vendas cresceram 12% mesmo com juros reais elevados. A produção de 2,644 milhões de veículos demonstra a capacidade de adaptação do setor.1
Mas a "qualidade" dessa produção está mudando. O Brasil deixa de ser apenas um produtor de veículos a combustão de entrada para se tornar um campo de batalha global pela eletrificação. As políticas públicas — MOVER, Reforma Tributária, tarifas de importação — estão alinhadas para forçar a internalização da nova manufatura.
Para 2026, o sucesso será medido pela velocidade com que as montadoras nacionalizarem a produção de elétricos e híbridos, pela gestão de estoques frente à nova realidade tributária e pela manutenção da competitividade exportadora em um mercado regional volátil.
O setor não está apenas recuperando volumes — está se reinventando tecnologicamente. E 2026 será o ano-chave para consolidar essa transição.
Dados históricos da indústria automotiva brasileira: produção e licenciamento
| Ano | Produção Total (Milhões) | Licenciamento Total (Milhões) | Contexto Econômico |
|---|---|---|---|
| 2013 | 3,71 | 3,80 | Pico histórico; Crédito farto; PIB alto. |
| 2016 | 2,16 | 2,05 | Crise econômica profunda; Recessão. |
| 2019 | 2,94 | 2,79 | Recuperação pré-pandemia. |
| 2020 | 2,01 | 2,06 | Pandemia COVID-19; Lockdown. |
| 2023 | 2,32 | 2,30 | Crise de Semicondutores; Início da recuperação. |
| 2024 | 2,55 | 2,45 | Consolidação da recuperação; Vendas diretas fortes. |
| 2025 | 2,64 | ~2,60 | Recuperação da Oferta; Boom de Elétricos; Retomada Exportação. |
| 2026 (P) | 2,74 | ~2,70 | Início da produção local de EVs; Ajuste tributário. |
Fonte: Elaboração própria baseada nos dados históricos da Anfavea 4 e projeções atuais.1
Perguntas frequentes sobre a indústria automotiva brasileira
Quantos carros o Brasil produziu em 2025?
O Brasil produziu 2,644 milhões de veículos em 2025, um crescimento de 3,5% sobre 2024. Desse total, cerca de 2,49 milhões foram veículos leves e 152 mil foram caminhões e ônibus.1
Qual a participação de carros elétricos e híbridos no Brasil?
Em 2025, foram vendidas 223.912 unidades de veículos eletrificados (HEV, PHEV e BEV), representando entre 8% e 10% do mercado total. O crescimento foi de 26% em relação a 2024.1213
Qual montadora vende mais carros elétricos no Brasil?
A BYD liderou com 50,4% de market share no segmento de eletrificados em 2025, vendendo 112.915 unidades. A GWM é a segunda marca chinesa com maior presença.12
O Brasil vai produzir carros elétricos?
Sim. A BYD já iniciou a montagem de veículos em Camaçari (BA), na antiga fábrica da Ford. A GWM opera em Iracemápolis (SP). Ambas estão habilitadas no Programa MOVER e devem expandir a produção local ao longo de 2026.21
O que é o Programa MOVER?
O MOVER (Mobilidade Verde e Inovação) é o programa federal que sucede o Rota 2030. Concede créditos financeiros a montadoras que investirem em P&D, eficiência energética e descarbonização no Brasil. O orçamento previsto totaliza mais de R\$ 19 bilhões até 2028.1718
O que muda com a Reforma Tributária para o setor automotivo?
A Reforma Tributária unifica impostos (IVA Dual: CBS + IBS), elimina incentivos fiscais regionais e pode criar um Imposto Seletivo que penalize veículos a combustão. A transição inicia em 2026.2223
Trabalhos Citados
-
Produção e venda de autoveículos crescem em 2025 e Anfavea ..., accessed January 22, 2026, https://anfavea.com.br/site/wp-content/uploads/2026/01/Release-Janeiro-2026-final.pdf ↩↩↩↩↩↩↩↩↩↩
-
Produção de veículos cresceu 3,5% em 2025, diz associação - Poder360, accessed January 22, 2026, https://www.poder360.com.br/poder-infra/producao-de-veiculos-cresceu-35-em-2025-diz-associacao/ ↩
-
Mercado financeiro eleva projeção do PIB para 2,25% em 2025 - Agência Brasil, accessed January 22, 2026, https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2025-12/mercado-financeiro-eleva-projecao-do-pib-para-225-em-2025 ↩
-
Edições em Excel | Anfavea, accessed January 22, 2026, https://anfavea.com.br/site/edicoes-em-excel/ ↩↩↩↩↩
-
Inflação | IBGE, accessed January 22, 2026, https://www.ibge.gov.br/explica/inflacao.php ↩
-
IPCA: inflação fecha 2025 em 4,26% e fica dentro do teto da meta | LIVE CNN - YouTube, accessed January 22, 2026, https://www.youtube.com/watch?v=EOCRIXQq8Ds ↩
-
Mercado reduz previsão de inflação para 4,32% em 2025 - Agência Brasil, accessed January 22, 2026, https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2025-12/mercado-reduz-previsao-de-inflacao-para-432-em-2025 ↩↩
-
Mercado financeiro reduz para 4,02% a estimativa de inflação no Brasil em 2026 - Jornal O Sul, accessed January 22, 2026, https://www.osul.com.br/mercado-financeiro-reduz-para-402-a-estimativa-de-inflacao-no-brasil-em-2026/ ↩
-
Coletiva de Imprensa | Anfavea, accessed January 22, 2026, https://anfavea.com.br/site/wp-content/uploads/2025/07/Coletiva-de-Imprensa-Julho.pdf ↩↩↩
-
REVISÃO SEMESTRAL DAS PROJEÇÕES 2024 Desempenho da Indústria Automobilística Brasileira - Anfavea |, accessed January 22, 2026, https://anfavea.com.br/site/wp-content/uploads/2024/07/COLETIVA-JULHO-.pdf ↩
-
Coletiva de Imprensa - Anfavea |, accessed January 22, 2026, https://anfavea.com.br/site/wp-content/uploads/2025/01/COLETIVA-Janeiro-2025v8_corr.pdf ↩↩
-
Gigante chinesa lidera com folga vendas de carros elétricos no Brasil em 2025, accessed January 22, 2026, https://atarde.com.br/autos/gigante-chinesa-lidera-com-folga-vendas-de-carros-eletricos-no-brasil-em-2025-1375954 ↩↩↩↩↩
-
Carros Elétricos e Híbridos Batem Recorde e Somam 223 Mil Vendas em 2025 no Brasil, accessed January 22, 2026, https://forbes.com.br/forbeslife/forbes-motors/2026/01/carros-eletricos-e-hibridos-batem-recorde-e-somam-223-mil-vendas-em-2025-no-brasil/ ↩
-
Prepare o bolso: importação de carros elétricos ficará mais cara no Brasil em 2026, accessed January 22, 2026, https://insideevs.uol.com.br/news/782992/importacao-eletricos-mais-cara-brasil/ ↩
-
Exportações de veículos crescem 39% em 2025 - Smabc, accessed January 22, 2026, https://smabc.org.br/exportacoes-de-veiculos-crescem-39-em-2025/ ↩
-
Março 2025 - Anfavea |, accessed January 22, 2026, https://anfavea.com.br/site/wp-content/uploads/2025/04/COLETIVA-Abril-2025-v5.pdf ↩
-
Programa MOVER, accessed January 22, 2026, https://www.programa-mover.com/ ↩↩
-
Programa MOVER — Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, accessed January 22, 2026, https://www.gov.br/mdic/pt-br/assuntos/sdic/setor-automotivo/programa-mover ↩↩
-
Programa Mover - Incentivos fiscais para todo o setor de mobilidade - PwC, accessed January 22, 2026, https://www.pwc.com.br/pt/thinking-about-taxes/tax-intelligence/2024/programa-mover-incentivos-fiscais-para-todo-o-setor-de-mobilidade.pdf ↩
-
Perguntas frequentes - Programa MOVER, accessed January 22, 2026, https://www.programa-mover.com/faq/ ↩
-
Primeira habilitada no Mover a produzir híbridos plug-in no Brasil entra em operação em São Paulo - Portal Gov.br, accessed January 22, 2026, https://www.gov.br/mdic/pt-br/assuntos/noticias/2025/agosto/primeira-habilitada-no-mover-a-produzir-hibridos-plug-in-no-brasil-entra-em-operacao-em-sao-paulo ↩↩
-
Reforma tributária no setor automotivo: O que muda e como se preparar - BSSP Consulting, accessed January 22, 2026, https://bsspconsulting.com.br/reforma-tributaria-no-setor-automotivo-o-que-muda-e-como-se-preparar/ ↩↩
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Reforma tributária expõe riscos de competitividade e pressiona caixa do setor - AutoData, accessed January 22, 2026, https://www.autodata.com.br/noticias/2026/01/22/reforma-tributaria-expoe-riscos-de-competitividade-e-pressiona-caixa-do-setor/98955/ ↩