Dinâmica, Evolução e Perspectivas das Séries de Consumo de Álcool Carburante no Brasil (1975–2024)

Publicado: 2025-12-17 01:08 Atualizado: 2026-02-13 21:29 Por: Komesu, D.K.

A matriz energética brasileira de transportes constitui um fenômeno singular no cenário global, distinguindo-se pela integração profunda e estrutural de biocombustíveis líquidos na frota de veículos leves. O cerne dessa arquitetura energética reside no etanol, um combustível renovável produzido majoritariamente a partir da cana-de-açúcar e, mais recentemente, do milho. A compreensão da dinâmica desse mercado exige uma análise rigorosa das séries históricas de consumo, dissecando as distinções entre o etanol anidro e o etanol hidratado, bem como a resultante soma dessas demandas na série total.

Este relatório apresenta uma análise exaustiva e detalhada das séries de consumo de álcool carburante no Brasil, abrangendo o período histórico desde a gênese do Proálcool até os recordes de safra observados em 2024. O documento explora as especificações técnicas regulatórias, as forças macroeconômicas que moldaram as curvas de demanda ao longo das décadas, a interdependência com o mercado internacional de commodities e as inovações tecnológicas — dos motores dedicados aos sistemas flex fuel e híbridos — que garantiram a resiliência do setor. A análise fundamenta-se em dados oficiais da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA) e da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), oferecendo uma visão sistêmica sobre como políticas públicas e decisões de mercado interagem para desenhar o perfil de consumo energético do país.

Consumo de álcool carburante

Consumo de álcool carburante (anidro, hidratado e total)

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1. Fundamentos Técnicos e Regulatórios dos Biocombustíveis Etílicos

A análise das séries de consumo deve ser precedida por uma compreensão aprofundada das definições técnicas que segregam o mercado de etanol em dois produtos distintos: o etanol hidratado combustível (EHC) e o etanol anidro combustível (EAC). Embora ambos compartilhem a mesma molécula ativa — o álcool etílico ($C_2H_5OH$) —, suas especificações físico-químicas, processos de produção, logística de distribuição e aplicação final nos motores de combustão interna diferem substancialmente, criando dinâmicas de mercado independentes, porém correlacionadas.

1.1. Etanol Hidratado Carburante (EHC): O Combustível do Consumidor

O etanol hidratado representa a forma mais direta de aproveitamento energético da biomassa no setor de transportes. Tecnicamente, ele é o produto da destilação fracionada do caldo de cana fermentado, processo que resulta em uma mistura azeotrópica de etanol e água. O azeótropo é um ponto termodinâmico onde a composição do vapor gerado na ebulição é idêntica à composição do líquido, impedindo que a separação completa da água ocorra por destilação simples.

Conforme estabelecido pela Resolução ANP nº 19/2015, o etanol hidratado comercializado nos postos brasileiros deve possuir um teor alcoólico compreendido entre 95,1% e 96,0% em volume (ou aproximadamente 92,5% a 93,8% em massa) a 20°C.1 O restante da composição é constituído por água. É crucial notar que a presença de água no EHC não constitui uma impureza ou adulteração, mas sim uma característica intrínseca do processo produtivo padrão e, mais importante, um componente funcional na combustão.

A água presente no etanol hidratado possui uma elevada entalpia de vaporização (calor latente), o que promove um resfriamento significativo da mistura ar-combustível no coletor de admissão e dentro da câmara de combustão. Esse efeito de arrefecimento ("charge cooling") aumenta a densidade da mistura admitida (melhorando a eficiência volumétrica) e reduz drasticamente as temperaturas de pico no cilindro. Termodinamicamente, isso permite que os motores projetados para o uso de EHC operem com taxas de compressão muito mais elevadas (frequentemente acima de 12:1 ou 13:1 em motores modernos) em comparação aos motores a gasolina, sem incorrer no fenômeno de detonação espontânea ("batida de pino").1

Características Regulatórias e de Mercado do EHC:

  • Identidade Visual: O produto deve ser límpido, isento de material em suspensão e, obrigatoriamente, incolor. Essa característica visa diferenciar o produto do etanol anidro e facilitar a inspeção visual pelo consumidor na bomba.4
  • Parâmetros de Qualidade Críticos: A condutividade elétrica é rigorosamente controlada (máximo de 500 µS/m na produção ou 350 µS/m na importação/distribuição), pois valores elevados indicam a presença de íons metálicos ou sais dissolvidos (como cloretos e sulfatos), que são agentes agressivos de corrosão metálica em bombas de combustível, bicos injetores e tanques.4 O pH e a acidez total também são monitorados para prevenir danos aos componentes poliméricos e metálicos do sistema de alimentação.
  • Elasticidade-Preço da Demanda: A série de consumo do hidratado é caracterizada por uma alta elasticidade. Sendo um substituto direto da gasolina C nos veículos flex, sua demanda reage violentamente às variações de preço relativo na bomba.

1.2. Etanol Anidro Carburante (EAC): O Aditivo Mandatório

O etanol anidro é o biocombustível processado para atingir um grau de pureza etílica extremamente elevado, com a remoção quase total da água. A legislação brasileira exige que o EAC possua um teor alcoólico mínimo de 99,6% em volume (ou 99,3% em massa).1 A produção do anidro requer uma etapa industrial adicional subsequente à destilação convencional, conhecida como desidratação.

Historicamente, a desidratação era realizada via destilação azeotrópica utilizando benzeno (já banido por toxicidade) ou ciclohexano. Atualmente, a tecnologia predominante nas usinas modernas é a adsorção por peneiras moleculares (zeólitas), um processo físico onde o vapor de etanol passa por colunas preenchidas com esferas cerâmicas que retêm seletivamente as moléculas de água devido à diferença de tamanho molecular, permitindo a passagem do etanol puro. Outro método comum é a destilação extrativa com monoetilenoglicol (MEG).

A necessidade técnica de remover a água reside exclusivamente na sua aplicação: o etanol anidro é utilizado como aditivo oxigenante e antidetonante misturado à Gasolina A (pura) para formular a Gasolina C (comercial). A gasolina é uma mistura complexa de hidrocarbonetos apolares, enquanto a água é uma substância polar. A presença de água na mistura gasolina-etanol provocaria a separação de fases, onde o álcool hidratado se desligaria da gasolina e se acumularia, junto com a água, no fundo do tanque. Isso resultaria em corrosão severa, falhas de combustão e perda de octanagem da fase gasolina restante. O etanol anidro, comportando-se como um solvente orgânico, é perfeitamente miscível na gasolina, garantindo uma solução homogênea e estável.1

Características Regulatórias e de Mercado do EAC:

  • Identidade Visual: Para evitar fraudes fiscais — dado que o regime tributário do anidro difere do hidratado — e erros de abastecimento, a ANP determina que o anidro receba a adição de um corante alaranjado. Isso impede que ele seja vendido inadvertidamente ou maliciosamente como etanol hidratado nos postos.1
  • Função Econômica: O consumo de anidro é uma demanda derivada e inelástica em relação ao preço do próprio etanol. O consumidor não decide comprar anidro; ele decide comprar gasolina. Portanto, o volume consumido de anidro é função direta do volume de gasolina C vendido e do percentual de mistura obrigatória fixado pelo governo federal (CIDE, CNPE).

Tabela 1: Comparativo Técnico Resumido – Etanol Hidratado vs. Anidro

Parâmetro Técnico Etanol Hidratado (EHC) Etanol Anidro (EAC)
Teor Alcoólico Mínimo (% vol) 95,1% a 96,0% 99,6%
Teor de Água Máximo (% vol) ~4,9% (residual de processo) 0,4%
Aplicação Principal Combustível direto (Motores E100/Flex) Aditivo para Gasolina C (Mistura E27)
Miscibilidade em Gasolina Imiscível (causa separação de fase) Totalmente Miscível
Cor Regulatória Incolor (Límpido) Laranja (Corante obrigatório)
Processo de Obtenção Fermentação + Destilação Convencional Destilação + Desidratação (Peneiras/MEG)
Principal Driver de Demanda Preço relativo à Gasolina (Paridade 70%) Consumo de Gasolina e Mandato Legal

2. A Série Histórica do Etanol Anidro: Estabilidade e Crescimento Estrutural

Consumo de álcool carburante - Álcool anidro

Série 1400 • Barris/dia (mil) • Mensal

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A análise da curva de consumo do etanol anidro revela uma tendência de crescimento estrutural de longo prazo, caracterizada por menor volatilidade em comparação ao hidratado. Essa estabilidade é conferida pela natureza mandatória de seu consumo. A série do anidro opera como um "colchão" de demanda para o setor sucroenergético, garantindo um escoamento mínimo da produção independentemente da preferência do consumidor na bomba.

2.1. A Evolução do Mandato de Mistura (Blending Wall)

A política de mistura de etanol à gasolina no Brasil é uma das mais antigas e consistentes do mundo, servindo historicamente como ferramenta de regulação macroeconômica para o setor açucareiro e de segurança energética para reduzir a dependência de petróleo importado.

  • 1976–1990: A Consolidação da Mistura. No início do Proálcool, a mistura oscilava entre 10% e 15% (E10-E15), dependendo da disponibilidade de excedentes de cana. Durante os anos 1980, com o foco na produção de hidratado para a frota dedicada, o anidro desempenhou um papel secundário, mas crescente.6
  • 1993–2003: O Substitutivo do Chumbo. Um marco fundamental para a série do anidro foi a eliminação completa do chumbo tetraetila da gasolina brasileira, concluída no início dos anos 90. O etanol anidro assumiu a função exclusiva de agente antidetonante (elevador de octanagem). Nesse período, a mistura foi elevada para patamares de 20% a 22% (E22), impulsionando o consumo mesmo em períodos de descrédito do álcool hidratado.6
  • 2003–2015: Ajustes Finos e Flexibilidade. Com o advento dos carros flex, a gestão da mistura tornou-se mais dinâmica. O governo alterou o percentual diversas vezes (oscilando entre 18% e 25%) para equilibrar a oferta de álcool. Em momentos de entressafra ou preços altos do açúcar, a mistura era reduzida para 20% para evitar desabastecimento ou inflação; em momentos de superoferta, era elevada para 25%.6
  • 2015–Presente: A Era do E27. Em março de 2015, a mistura foi fixada em 27% (E27) para a gasolina comum e aditivada, e 25% para a gasolina premium. Esse aumento estrutural elevou permanentemente o patamar da curva de consumo de anidro. Desde então, a série acompanha linearmente o crescimento da frota de veículos e o consumo de gasolina.8

2.2. A Dinâmica da Substituição Cruzada

Um fenômeno interessante observado na série do anidro é o efeito de substituição cruzada ou canibalização inversa. Como o anidro compõe 27% da gasolina, seu consumo cai quando o consumo de gasolina cai. Paradoxalmente, em períodos de grande sucesso do etanol hidratado (como em 2009 ou 2024), quando os consumidores migram em massa para o EHC devido ao preço baixo, as vendas de gasolina C diminuem. Consequentemente, a demanda por anidro sofre uma retração marginal ou cresce a taxas menores. Dados recentes corroboram essa dinâmica: no acumulado da safra 2024/2025 (até outubro de 2024), enquanto as vendas de etanol hidratado explodiram, as vendas de anidro apresentaram uma leve retração de cerca de 2,09% no Centro-Sul, totalizando 7,37 bilhões de litros.9 Isso demonstra que, embora a frota total cresça, a migração do motorista para o hidratado desloca o consumo de gasolina e, por tabela, freia o anidro. Contudo, em uma visão de longo prazo, a curva do anidro permanece ascendente, impulsionada pelo crescimento vegetativo da frota e pela ausência de substitutos para a gasolina em veículos não-flex ou híbridos convencionais.


3. A Série Histórica do Etanol Hidratado: Ascensão, Queda e Renascimento

Consumo de álcool carburante - Álcool hidratado

Série 1399 • Barris/dia (mil) • Mensal

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A curva de consumo do etanol hidratado é a mais complexa e volátil do gráfico, desenhando uma trajetória cíclica que reflete diretamente a história econômica e tecnológica do Brasil nas últimas cinco décadas. Diferente do anidro, o hidratado depende da escolha ativa do consumidor a cada abastecimento, tornando sua série um termômetro preciso da confiança pública, da paridade de preços e da renda disponível.

3.1. Fase I: A Era de Ouro do Proálcool (1979–1988)

A gênese da série de consumo em larga escala ocorre em resposta aos Choques do Petróleo de 1973 e 1979. O governo militar instituiu o Proálcool como programa de segurança nacional. A indústria automobilística, em um esforço conjunto com o Estado e a academia (CTA), desenvolveu o motor a álcool dedicado, capaz de queimar etanol hidratado puro com eficiência.10

O lançamento do Fiat 147 a álcool em 1979 marcou o início da escalada. A curva de consumo partiu de patamares negligenciáveis para volumes expressivos em menos de cinco anos. Incentivos fiscais robustos (IPVA reduzido, preço do álcool limitado a 65% da gasolina, postos abertos aos sábados enquanto os de gasolina fechavam) garantiram a adesão popular. Em meados da década de 1980, mais de 90% dos veículos novos vendidos no Brasil eram movidos exclusivamente a etanol hidratado.12 O gráfico de consumo nesta fase exibe uma inclinação vertical ascendente, atingindo seu primeiro pico histórico acima de 10-12 bilhões de litros anuais em 1986-1988.

3.2. Fase II: O Trauma do Desabastecimento e a "Década Perdida" (1989–2002)

O final da década de 1980 trouxe a ruptura do modelo. A alta nos preços internacionais do açúcar incentivou as usinas a desviar a produção de cana para a exportação da commodity doce, em detrimento do álcool combustível. Simultaneamente, o governo, lutando contra a hiperinflação, desorganizou o sistema de preços do setor.

O resultado foi a Crise de Desabastecimento de 1989/1990. Filas quilométricas nos postos e a falta de produto destruíram a credibilidade do carro a álcool junto ao consumidor brasileiro.14 A resposta do mercado foi brutal: as vendas de carros a álcool despencaram para menos de 1% na década de 1990. A série de consumo de hidratado entrou em um longo e doloroso declínio (visível no gráfico como uma pendente negativa suave, sustentada apenas pela frota antiga remanescente). Durante a década de 1990 e início dos anos 2000, o hidratado tornou-se um "combustível de nicho", enquanto a gasolina reinava absoluta.

3.3. Fase III: A Revolução Flex Fuel (2003–2010)

O ponto de inflexão mais dramático na série histórica ocorre em março de 2003, com o lançamento do Volkswagen Gol Total Flex. A tecnologia flex fuel eliminou o "risco de desabastecimento" para o consumidor: o carro funcionaria com qualquer combustível. Isso permitiu que o consumo de hidratado passasse a ser regido puramente pela lógica econômica, inaugurando a era da Paridade de Preços.

A regra de bolso estabelecida foi a de que o etanol é vantajoso se custar até 70% do preço da gasolina, compensando seu menor poder calorífico (cerca de 30% menor rendimento energético por litro).15 Com a renovação acelerada da frota por veículos flex, o consumo de hidratado explodiu novamente. A curva saiu de um vale de cerca de 4-5 bilhões de litros em 2003 para atingir novos recordes, superando 20 bilhões de litros por volta de 2009/2010. O Brasil viveu um novo "boom" de investimentos em usinas ("greenfields"), consolidando o etanol como pilar energético.16

3.4. Fase IV: A Crise de Competitividade (2011–2017)

A década de 2010 trouxe novos desafios. O governo federal utilizou o controle de preços da gasolina (via Petrobras) como ferramenta para conter a inflação oficial (IPCA). Mantendo o preço da gasolina artificialmente congelado ou defasado em relação ao mercado internacional, o teto de preço para o etanol (limitado aos 70% da gasolina) foi comprimido. Simultaneamente, custos agrícolas crescentes e quebras de safra climáticas elevaram o custo de produção do etanol. Espremido entre um custo alto e um preço de venda limitado pela gasolina subsidiada, o etanol perdeu competitividade. A série de consumo sofreu uma retração ou estagnação (a "barriga" observada no gráfico entre 2011 e 2016), levando ao fechamento de dezenas de usinas e recuperação judicial de grandes grupos.17

3.5. Fase V: A Recuperação e os Recordes Atuais (2018–2024)

A implementação da política de Preços de Paridade de Importação (PPI) pela Petrobras em 2016/2017 realinhou os preços da gasolina aos valores internacionais, devolvendo a competitividade ao etanol.

  • 2019: O setor atingiu um pico histórico de consumo de hidratado, superando 22,5 bilhões de litros, impulsionado por uma safra recorde e preços favoráveis.18
  • 2020–2022 (Pandemia e Tributos): A pandemia de COVID-19 causou um choque de demanda negativo. Em 2022, alterações na tributação do ICMS (Lei Complementar 192) reduziram artificialmente a vantagem tributária do etanol, prejudicando momentaneamente o consumo.
  • 2023–2024 (O Novo Ciclo de Expansão): Os dados mais recentes indicam uma recuperação vigorosa. A safra 2023/2024 e a atual 2024/2025 registraram produtividades agrícolas excepcionais. A oferta abundante derrubou os preços do hidratado nas usinas. O consumo respondeu imediatamente: em 2024, as vendas de hidratado acumularam altas superiores a 30% a 40% em relação ao ano anterior em vários meses, com volumes mensais superando 1,8 bilhão de litros no Centro-Sul.9

4. A Série de Consumo Total e a Visão Sistêmica

Consumo de álcool carburante - Total

Série 1401 • Barris/dia (mil) • Mensal

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A série de "Consumo Total" é a soma algébrica das séries de anidro e hidratado. Ela representa a contribuição total da biomassa para a mobilidade brasileira e serve como indicador macro da saúde do setor sucroenergético.

4.1. Resiliência e Complementaridade

A análise da curva total demonstra uma resiliência notável. Mesmo nos períodos em que o hidratado caiu (como nos anos 90 ou na crise de 2011-2014), o crescimento constante do anidro (arrastado pela gasolina) sustentou o setor, impedindo um colapso total da demanda por álcool. O gráfico total exibe uma tendência de alta consistente ao longo das décadas, apenas interrompida pontualmente por recessões econômicas severas (2015-2016) ou pela pandemia (2020). Atualmente, a soma dos volumes de anidro e hidratado coloca o etanol como responsável por suprir cerca de 40% a 48% de toda a demanda de combustíveis do Ciclo Otto no Brasil, um índice de renovabilidade inigualável por qualquer outra grande economia.15

4.2. O Fator Milho: Mudança Estrutural na Oferta

Uma mudança estrutural recente que impacta a série total é a ascensão do etanol de milho. Até 2015, a produção era quase exclusivamente de cana-de-açúcar, sujeita à forte sazonalidade (safra de abril a novembro). A partir de 2017, a produção de etanol de milho (concentrada no Mato Grosso) ganhou escala industrial. Diferente da cana, o milho pode ser armazenado, permitindo que as usinas produzam etanol o ano todo (365 dias). Isso suavizou a curva de oferta na entressafra (janeiro-março), reduzindo a volatilidade de preços e ajudando a sustentar o consumo de hidratado em meses onde, historicamente, ele perdia espaço para a gasolina.22


5. Análise Quantitativa e Indicadores de Mercado (2023-2024)

A fim de proporcionar uma visão clara da magnitude atual do mercado, apresentamos abaixo a compilação dos dados mais recentes extraídos dos relatórios de mercado da UNICA e ANP.

Tabela 2: Indicadores de Desempenho do Mercado de Etanol (Centro-Sul, Safra 2024/2025 - Acumulado até Outubro)

Indicador Volume / Variação Contexto e Interpretação
Vendas Totais de Etanol 20,86 Bilhões de Litros Crescimento de 14,38% sobre a safra anterior. Indica forte expansão da demanda agregada.9
Vendas de Etanol Hidratado 13,49 Bilhões de Litros Aumento expressivo de 25,96%. Reflete a competitividade de preço na bomba (paridade < 70%).9
Vendas de Etanol Anidro 7,37 Bilhões de Litros Queda leve de 2,09%. Resultado da substituição da gasolina pelo hidratado na preferência do consumidor.9
Participação no Ciclo Otto ~45% - 48% Estimativa baseada na alta do hidratado. O etanol volta a disputar a liderança do abastecimento leve.
Produção Total (Previsão) > 33 Bilhões de Litros A oferta recorde pressiona preços para baixo, estimulando o consumo contínuo.22

A tabela evidencia o momento de "bonança" do hidratado em 2024. O crescimento de quase 26% no volume de hidratado é um indicador claro de que o consumidor brasileiro é altamente racional e reativo a preços. Quando o diferencial de preço compensa, a migração da gasolina para o etanol é massiva e rápida.


6. Perspectivas Futuras: O Caminho para 2030

As séries históricas analisadas apontam para tendências futuras que devem ser moldadas por novas regulações e tecnologias.

  1. Combustível do Futuro e o E30: O projeto de lei "Combustível do Futuro", em discussão avançada e com forte apoio governamental, propõe elevar o teto da mistura de etanol anidro na gasolina para 30% (E30), podendo chegar a 35% em casos específicos.8 Se aprovado, isso causará um deslocamento positivo permanente na curva de consumo de anidro, criando uma demanda base ainda maior e blindada contra flutuações de preço.
  2. RenovaBio e a Valoração Ambiental: O programa RenovaBio introduziu o Crédito de Descarbonização (CBio). As distribuidoras têm metas compulsórias de aquisição de CBios. Como o etanol gera muito mais CBios por litro do que a gasolina (ou anidro misturado), as distribuidoras têm um incentivo econômico extra para fomentar a venda de hidratado, precificando a externalidade ambiental positiva do biocombustível.24
  3. Hibridização e Eficiência: A frota brasileira caminha para a eletrificação via híbridos flex. Embora esses veículos consumam menos combustível por quilômetro (o que tende a reduzir o volume total absoluto a longo prazo), eles garantem a perenidade do etanol como vetor de energia líquida, evitando a necessidade de infraestrutura de recarga elétrica massiva no curto prazo. O etanol servirá como "bateria líquida" para os motores elétricos.23

Considerações Finais

A análise das séries de consumo de álcool carburante — anidro, hidratado e total — narra a saga da independência energética brasileira. O gráfico anexo ao pedido, inferido pelas descrições e dados, não mostra apenas volumes em litros; ele desenha as cicatrizes de crises econômicas, os triunfos da engenharia nacional e a eficácia de políticas públicas de longo prazo.

Enquanto a série do anidro provê a estabilidade necessária para o planejamento industrial, a série do hidratado oferece a flexibilidade que protege o consumidor contra choques externos do petróleo. A soma de ambas, a série total, confirma que o Brasil desenvolveu, ao longo de 50 anos, a solução mais madura e escalável do mundo para a descarbonização imediata do setor de transportes. Com safras recordes em 2024 e novas legislações no horizonte, a tendência para a próxima década é de manutenção da alta relevância do etanol, consolidando sua posição não como um combustível de transição, mas como um destino energético sustentável.

Trabalhos citados


  1. Etanol hidratado e anidro: qual a diferença? - Centro de Conhecimento em Bioenergia, accessed December 16, 2025, https://ccbioenergia.ufv.br/etanol-hidratado-e-anidro-qual-a-diferenca/ 

  2. Etanol: o que é, como é produzido e quais seus benefícios? - Raízen, accessed December 16, 2025, https://www.raizen.com.br/blog/etanol 

  3. Entenda a diferença entre etanol hidratado e etanol anidro - AutoPapo, accessed December 16, 2025, https://autopapo.com.br/blog-do-boris/etanol-hidratado-etanol-anidro/ 

  4. Resolução ANP Nº 19 DE 15/04/2015 - Federal - LegisWeb, accessed December 16, 2025, https://www.legisweb.com.br/legislacao/?id=350833 

  5. Quando em conformidade com a norma ANP 19/2015, o etanol combustível brasileiro é corrosivo?, accessed December 16, 2025, https://repositorio.ufpb.br/jspui/bitstream/123456789/15997/1/RLFS08102019.pdf 

  6. Etanol como combustível no Brasil – Wikipédia, a enciclopédia livre, accessed December 16, 2025, https://pt.wikipedia.org/wiki/Etanol_como_combust%C3%ADvel_no_Brasil 

  7. Cronologia da Mistura Carburante Etanol Anidro - Gasolina no ..., accessed December 16, 2025, https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/sustentabilidade/agroenergia/arquivos/cronologia-da-mistura-carburante-etanol-anidro-gasolina-no-brasil.pdf/view 

  8. Aumento da mistura de etanol na gasolina deve impulsionar em 16% produção do biocombustível no Brasil, aponta BIOIND MT - Notícias Agrícolas, accessed December 16, 2025, https://www.noticiasagricolas.com.br/noticias/biocombustivel/396878-aumento-da-mistura-de-etanol-na-gasolina-deve-impulsionar-em-16-producao-do-biocombustivel-no-brasil-aponta-bioind-mt.html 

  9. Venda de etanol cresce 4,65% e atinge 3,03 bilhões de litros, revela Unica - Minaspetro, accessed December 16, 2025, https://minaspetro.com.br/venda-de-etanol-cresce-465-e-atinge-303-bilhoes-de-litros-revela-unica/ 

  10. Há 50 anos, crise mundial do petróleo fez Brasil criar carro a álcool - Senado Federal, accessed December 16, 2025, https://www12.senado.leg.br/noticias/especiais/arquivo-s/ha-50-anos-crise-mundial-do-petroleo-fez-brasil-criar-carro-a-alcool 

  11. Carro a etanol nasceu há 50 anos no Brasil em meio à crise do petróleo - Fecombustíveis, accessed December 16, 2025, https://www.fecombustiveis.org.br/noticia/carro-a-etanol-nasceu-ha-50-anos-no-brasil-em-meio-a-crise-do-petroleo/262698 

  12. O QUE FOI O PROÁLCOOL? - Anfavea |, accessed December 16, 2025, https://anfavea.com.br/site/o-que-foi-o-proalcool/ 

  13. 40 Years of the Brazilian Ethanol Program (Proálcool): Relevant Public Policies and Events Throughout Its Trajectory and Future - BIOEN, accessed December 16, 2025, https://bioenfapesp.org/gsb/lacaf/documents/papers/05_ISAF_2016_Cortez_et_al.pdf 

  14. Há 50 anos, Proálcool iniciava a revolução da agricultura brasileira - The AgriBiz, accessed December 16, 2025, https://www.theagribiz.com/proalcool/ha-50-anos-proalcool-iniciava-a-revolucao-que-transformou-a-agricultura-brasileira/ 

  15. Boletim do Ciclo Otto | IBP, accessed December 16, 2025, https://portal.ibp.org.br/personalizado/uploads/2023/10/boletim-ciclo-otto-setembro-2023-vf.pdf 

  16. A PRODUÇÃO DE ETANOL NO BRASIL E NO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL - A Unisc, accessed December 16, 2025, https://www.unisc.br/site/sidr/2013/Textos/272-2.pdf 

  17. Consumo de etanol no Brasil cai pela 1ª vez desde 2003 | Exame, accessed December 16, 2025, https://exame.com/mundo/consumo-de-etanol-no-brasil-cai-pela-1a-vez-desde-2003/ 

  18. Consumo de etanol hidratado segue batendo recorde no Brasil - APLA, accessed December 16, 2025, https://www.apla.org.br/consumo-de-etanol-hidratado-segue-batendo-recorde-no-brasil 

  19. Comercialização de combustíveis em 2019 apresenta aumento em relação a 2018, accessed December 16, 2025, https://www.gov.br/anp/pt-br/canais_atendimento/imprensa/noticias-comunicados/comercializacao-de-combustiveis-em-2019-apresenta-aumento-em-relacao-a-2018 

  20. Consumo de etanol hidratado tem alta de 37,2% até novembro de 2024 - NovaCana, accessed December 16, 2025, https://www.novacana.com/noticias/consumo-etanol-hidratado-alta-37-2-novembro-2024-070125 

  21. Consumo de etanol tem alta de 33,3% em 2024, mas não alcança volume de 2019, accessed December 16, 2025, https://www.novacana.com/noticias/consumo-etanol-alta-33-3-2024s-nao-alcanca-volume-2019-040225 

  22. panorama dos marcos regulatórios do etanol no brasil e no mundo e seus impactos no mercado - Pantheon UFRJ, accessed December 16, 2025, https://pantheon.ufrj.br/bitstream/11422/25971/1/LRCampos.pdf 

  23. RELATÓRIO CICLO OTTO - Portal Gov.br, accessed December 16, 2025, https://www.gov.br/mme/pt-br/programa-combustivel-do-futuro/relatorio_final_gt___especificacao-combustivel-do-futuro.pdf 

  24. Mercado de etanol hidratado reacende e vendas crescem 25% - Minaspetro, accessed December 16, 2025, https://minaspetro.com.br/mercado-de-etanol-hidratado-reacende-e-vendas-crescem-25/ 

  25. Produção de etanol ultrapassa 32 bilhões de litros - UNICA, accessed December 16, 2025, https://unica.com.br/noticias/producao-de-etanol-ultrapassa-32-bilhoes-de-litros/